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Stop-Loss, o muito aguardado segundo filme de Kimberly Peirce, a diretora de Meninos Não Choram, chegou aos cinemas dos Estados Unidos diante de alguns marcos desanimadores.
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O quinto aniversário da invasão do Iraque acaba de passar, e foram registradas as mortes de 4 mil soldados norte-americanos envolvidos no conflito. O nível de violência parece estar recomeçando a crescer, e o número de soldados no país se manterá o mesmo, pelo menos até a posse do próximo presidente dos EUA.
Por isso, Stop-Loss está sendo lançado em um momento sombriamente apropriado. O filme se concentra no sofrimento dos soldados norte-americanos, em combate e fora dele. Não que o tema tópico do trabalha sirva para atrair espectadores. Muitos espectadores, e alguns críticos, consideram a perspectiva de mais um filme sobre o Iraque e a guerra como cansativo, e não inspirador.
O fracasso comercial de filmes de ficção que tomaram o Iraque por tema no ano passado, entre os quais Redacted, de Brian De Palma, e No Vale das Sombras, de Paul Haggis, serviu para confirmar a crença em que o público reluta em confrontar a guerra nas telas. Mas esses filmes não necessariamente mereciam fracassar, e seria lastimável que Stop-Loss terminasse esquecido como eles.
Eu o afirmo em parte porque o filme de Peirce, escrito em parceria com Mark Richard, é não só uma narrativa convincente e apegada às questões relevantes como um entretenimento febril, um melodrama apaixonado, às vezes quase barroco, repleto de ações e emoções violentas. A piedade sóbria, o ar de luto, que envolve outros filmes de ficção sobre o Iraque praticamente não existem em Stop-Loss.
Não quero dizer que não se trata de um filme sentimental - longe disse-, mas as emoções confusas e doloridas que ele evoca parecem autênticas. Em lugar de indignação moralista ou pesar, seu combustível é mais rasteiro: suor, cerveja, testosterona, música ruidosa e uma sensação de raiva ideologicamente indeterminada e dispersa.
A maior parte desses elementos surge nas primeiras cenas, com vídeos pseudo-amadores de soldados em repouso e em serviço. Eles se provocam impiedosa e cruamente, e fica claro desde o começo que não são santos nem monstros, mas sim os impuros frutos da cultura pop norte-americana.
Até que o mundo despenca sobre eles. O grupo de combate liderado pelo sargento Brandon King (Ryan Phillippe), que cuida de um posto de patrulha em Tikrit, se envolve em uma troca de tiros que mata alguns soldados, fere gravemente a alguns dos outros e causa sério abalo aos demais, devido à perda dos amigos e à morte de civis iraquianos. Depois da experiência, Brandon e seu melhor amigo, Steve Shriver (Channing Tatum) estão felizes porque seu período de serviço está chegando ao fim, e eles planejam voltar à velha vida de bagunça no Texas.
Mas alguém discorda de seus planos: o exército invoca uma norma conhecida como "stop-loss", cujo objetivo é restringir a saída de soldados, e estende compulsoriamente o serviço militar de Brandon, que recebe ordens de voltar ao Iraque para nova temporada de serviço. Furioso, e se sentindo traído, ele deserta. De acordo com uma longa tradição cinematográfica, o sargento cai na estrada em um carro esporte clássico de Detroit e acompanhado por uma bela mulher, no caso Michele (Abbie Cornish), a noiva de Steve.
Seria o momento de imaginar que o filme começou a perder o rumo. A viagem de Brandon e Michele oferece certas oportunidades visuais e dramáticas - encontros marcantes em motéis decaídos, discussões lacrimosas e episódios de violência aleatória; um frisson de tensão sexual-, mas o destino final da jornada é literalmente lugar algum.
Joseph Gordon-Levvitt interpreta Tommy, um dos soldados da unidade de Brandon, especialmente aflito com o trauma do combate. No entanto, a lógica da história e as motivações dos personagens parecem se tornar mais confusas a cada passo, enquanto Peirce e Richard lutam para controlar o ritmo, o ímpeto, da narrativa.
Mas a confusão mesma talvez sirva como prova de honestidade. Entre os muitos pontos fortes de Meninos Não Choram (1999), o impressionante filme de estréia de Peirce, há o senso de ritmo quanto à vida em cidade pequena, e o senso do risco emocional de uma amizade, dois traços que retornam em Stop-Loss. Uma narrativa mais clara deixaria a audiência, e os personagens, em suspenso entre finais tristes e felizes igualmente plausíveis.
Mas à medida que o filme avança se torna claro que não pode haver final feliz para Brandon. O ex-sargento pode optar entre uma vida como fugitivo ou a volta ao combate. E a história aberta e desanimadora que o filme oferece, confirmada nas dolorosas e frenéticas cenas finais, espelha a realidade mais ampla da guerra em si, já que se torna mais difícil a cada dia imaginar que ela termine.
Stop-Loss não defende causa alguma para além do reconhecimento desse fato. É um filme imperfeito - prejudicado, em especial, pelo seu afeto sincero e compaixão indisciplinada- sobre os imperfeitos jovens que continuam a retornar vezes sem conta a uma guerra sobre a qual nós outros preferimos não pensar.
Tradução: Paulo Eduardo Migliacci ME
A. O. Scott
The New York Times