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| Cena do filme |
Filmado na maior parte durante o inverno, em tons de marrom, cinza e branco sujos, Sleepwalking sustenta um clima de constante frieza, usando sua estética de desolação como uma prova de integridade. Integridade e qualidade, infelizmente, não são sinônimos.
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Sleepwalking talvez ocupe um território desolado no qual poucos filmes - nem mesmo os independentes - se aventuram a entrar, mas tem falhas demais para que se possa considerá-lo como candidato a prêmios. E não é esse o tipo de reconhecimento que representa a única esperança comercial para dramas depressivos sobre a vida moderna?
Ambientado no norte da Califórnia e Utah, mas filmado em Saskatchewan (Canadá), o filme, dirigido por William Maher e escrito por Zac Stanford ( Más Companhias), evoca um ambiente depressivo de apartamentos feios, frágeis casebres, mobília velha, quintais enlameados e cercas de arame.
Enquanto seus personagens tentam sobreviver a uma existência marginal, eles são definidos por esse ambiente opressivo. Quando quebram as regras, a polícia, o serviço social e os cobradores estão preparados para destruir qualquer esperança que tenha restado.
Como uma garota de 11 anos criada nessas condições pode encontrar uma vida melhor? Essa é uma pergunta que Tara Reedy (AnnaSophia Robb) não se atreve a fazer. No começo do filme, ela e sua irresponsável e relapsa mãe, Joleen (Charlize Theron), são expulsas da casa em que estavam morando com o último namorado de Joleen, preso por plantar maconha. Tara não tem outra opção que se arrastar tristemente atrás de Joleen, que só tem como recurso implorar a seu fraco e fracassado irmão mais novo, James (Nick Stahl), que lhes dê pousada.
Logo depois de se mudarem para o sujo apartamento de James, Joleen foge com um caminhoneiro, deixando Tara com seu tio, que trabalha em uma equipe de pavimentação. Depois de faltar muitos dias ao trabalho, ele é demitido. Tio e sobrinha vão parar no porão da casa do melhor amigo de James, Randall (Woody Harrelson). E pouco tempo mais tarde, Tara é recolhida a num orfanato.
Em um ultimo esforço para fincar raízes, James tira Tara do orfanato, sem permissão, arruma tudo em um carro e viaja para a casa em que ele e Joleen passaram a infância e da qual fugiram anos antes. As cenas de James e Tara, que concordaram em se passar por pai e filha, desenvolvendo uma ligação familiar na estrada dão ao filme seu único toque de suavidade. Ao chegar ao lar dos Reedy - uma decaída fazenda de criação de gado e cavalos que não passa de uma casa dos horrores à maneira gótica americana-, eles são imediatamente submetidos a trabalho escravo pelo monstruoso patriarca (Dennis Hopper).
Sleepwalking é o tipo de filme em que cada tique de personagem e nuance de diálogo devem ser perfeitamente calibrados para que soem verdadeiros. Nas primeiras cenas, uma atenção cuidadosa aos detalhes leva a pensar que é isso que acontecerá. Mas quando Maher, em sua estréia na direção de um longa, começa a trazer toques surreais e coloca ares literários, a força do filme se esvai, e sua linguagem se torna engessada.
No momento mais pungente, James, descrevendo sua vida, usa o título do filme em um depoimento inserido de forma direta. Uma inteligente seqüência de fantasia na qual Tara é observada por dois garotos enquanto se estira na beira da piscina de um motel, usando óculos escuros cor de rosa e patins, parece pertencer a outro filme. Antes de chegar a um final hesitante e insatisfatório, Sleepwalking sofre uma metamorfose, e troca o realismo social pelo cinema de horror.
Tradução: Paulo Eduardo Migliacci ME
Stephen Holden
The New York Times