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Alguns artistas sonham em capturar o mundo real em sua obra. Outros pensam em inventar seu próprio mundo. Sinédoque, Nova York, em cartaz em São Paulo, Rio e Brasília a partir de sexta-feira, ambiciona as duas coisas -- e consegue cumprir sua promessa na maior parte do tempo.
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O premiado roteirista Charlie Kaufman (Brilho Eterno de uma Mente Sem Lembranças, 2004) faz aqui sua estréia na direção, escrevendo também o roteiro e condensando na história todas as suas obsessões com metalinguagem e pós-modernidade.
Sinédoque, Nova York é muito mais do que a figura de linguagem presente no título -- na qual, entre outras coisas, a parte representa o todo. É um filme que pode ser visto como uma releitura do clássico felliniano 8 ½ -- embora Kaufman tenha afirmado, numa entrevista após a première mundial do filme, no Festival de Cannes 2008, que desconhece o longa italiano.
No filme de Federico Fellini, de 1963, o protagonista (Marcello Mastroianni) era um cineasta em crise criativa. Na história de Kaufman, trata-se de um diretor de teatro (Philip Seymour Hoffman, de Capote), tentando criar sua obra-prima, a peça que deixará seu nome na história.
A obra toda de Kaufman, que também inclui roteiros como Quero Ser John Malkovich (1999) e Adaptação (2002), ambos dirigidos por Spike Jonze -- que assina a produção aqui -- busca uma relação entre o que há dentro da cabeça dos personagens e a forma como esses pensamentos, desejos, frustrações se materializam.
Dessa vez, o foco cai sobre Caden Cotard (Philip Seymour Hoffman), o dramaturgo neurótico, casado com uma mulher tão atormentada quanto ele (Catherine Keener, de Na Natureza Selvagem), e cuja filha pequena é a soma exata das neuroses dos pais. As pessoas que cercam o protagonista também parecem sofrer de males emocionais, como a psiquiatra egoísta (Hope Davis, de Confidencial), que só pensa em transformar seu novo livro em best seller.
Nesse momento, Caden dirige A Morte do Caixeiro Viajante -- com o diferencial de colocar atores jovens no papel dos idosos que protagonizam a peça de Arthur Miller. Anos mais tarde, quando ganha um prêmio para a montagem de uma peça, o diretor decide escrever um texto sobre a vida, mas não uma representação da vida, mas, sim a vida própria, acontecendo em cima do palco.
Para a empreitada, conta com a ajuda de sua nova amada, Hazel (Samantha Morton, de Control), e da atriz Claire (Michelle Williams, de Não Estou Lá), entre outros. Mas Caden ensaia a peça por anos a fio, porque, como na vida, não consegue chegar a uma conclusão. A cada dia, acrescenta-se uma nova camada, uma novidade, um novo personagem -- e estes, assim como o diretor, envelhecem no palco, situado num grande galpão, um verdadeiro simulacro de Nova York, e, por extensão, da realidade.
Para interpretar a si mesmo na sua peça, Caden escolhe um ator (Tom Noonan) completamente diferente de si. Para o papel de 'Hazel', no entanto, coloca uma atriz (Emily Watson, de O Dragão Vermelho) muito parecida com a verdadeira. As vidas dessas quatro pessoas se cruzam e se confundem à medida em que o dramaturgo se torna o Deus de seu próprio mundo. Tudo isso até a chegada de uma nova personagem, vivida por Dianne Wiest (de Eu, Meu Irmão e Nossa Namorada).
Sinédoque, Nova York é uma experiência cinematográfica estranha -- no bom ou no mau sentido, dependendo da disposição e do interesse do espectador. É inegável, no entanto, que se trata de uma tentativa de fazer um cinema inteligente e instigante, longe das banalidades explosivas e escapistas nas quais Hollywood se acomodou.
Kaufman pode ainda não ter o domínio da técnica de outros cineastas que dirigiram roteiros seus - como Spike Jonze e Michel Gondry. Mesmo assim, o roteirista se mantém um provocador costumaz, rompendo limites entre a arte e a vida, o real e o imaginário.
Reuters