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Nos últimos anos, o Brasil teve várias vitórias em seu âmbito econômico e social. Conseguimos sediar a Copa do Mundo e o anúncio de que o Rio de Janeiro vai hospedar as Olimpíadas de 2016 foi recebido com euforia pelos reais e falsos patriotas da nossa nação. Mas há um título que ainda não conseguimos: o Oscar. E todo ano o possível candidato a uma possível indicação é acompanhado de um frisson absurdo. Todo mundo pensa: esse ano vai. E nada acontece. Salve Geral, de Sérgio Rezende, é o grande candidato da premiação em 2009. E, infelizmente, esse belo trabalho é limitado a uma euforia que ainda está longe de ter êxito.
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Como Rezende mesmo definiu, existe algo de mítico no Oscar. Muita gente não tem noção do árduo caminho que um filme estrangeiro faz para chegar à premiação mais luxuosa do mundo. E como você deve ter visto em matéria recente publicada pelo Terra, são mais de 70 países na disputa pela estatueta dourada. Muitos deles sequer são vistos pelos integrantes da Academia, um apanhado de gente de todo o mundo que, por ter recebido uma simples indicação, se vê no direito de votar pelos melhores. Melhores esses que só colocam como relevantes os filmes feitos no território norte-americano ou com o dinheiro dos Estados Unidos. Não é à toa que existe uma categoria para quem vem de fora. E Salve Geral poderia ser lembrado por tudo, menos por essa possível conquista.
Lembrado porque Rezende ousou em fazer o primeiro filme fictício que temos conhecimento sobre os ataques do PCC que aterrorizaram São Paulo em 2006. Lembrado porque Andréa Beltrão, Denise Weinberg e o estreante Lee Thalor fazem ótimas atuações. Ou lembrado porque é uma superprodução feita em território nacional.
A trama tem início quando Lúcia (Andréa Beltrão) e o filho, Rafael (Lee Thalor), se mudam para um bairro afastado da capital paulista depois que o progenitor da família morre e não deixa nada além de dívidas. Rafael comete uma besteira e é responsabilizado por um crime não-intencional. Ele vai preso e, no desespero, Lúcia acaba cedendo às tentativas da advogada Ruiva (Denise Weinberg) de envolvê-la como "funcionária" de um partido criminoso para tentar tirar o filho da cadeia. O filme segue contando uma história linear que culmina nos ataques do partido aos policiais da cidade de São Paulo. Qualquer semelhança não é mera coincidência.
Para tratar um tema tão delicado, Rezende toma os devidos cuidados. Procurando não pender para nenhum lado, ele evita fazer referências diretas à realidade. PCC é "partido". Nenhum líder do comando teve nomes citados, mas todos eles são uma junção dos que já passaram pela liderança da organização. A advogada Ruiva é um misto das mulheres que freqüentam o presídio e atuam como mandantes dos criminosos fora da cadeia, por se familiarizarem com a causa dos presos ou por simples submissão feminina. Os personagens de Andréa Beltrão e Lee Thalor, sim, são fictícios, mas poderiam não ser.
No mundo de Salve Geral, a polícia é corrupta, tão inescrupulosa quanto os bandidos que forçam tais acontecimentos. Os criminosos são humanos que lutam por melhores condições dentro dos presídios. Com tanta coisa acontecendo, os ataques do "partido" a São Paulo são apenas coadjuvantes na história, servindo como cenário para o desespero dessa mãe e dos ideais de personalidades um tanto duvidosas na vida do espectador, mas muito próximas de quem vive na realidade das favelas e da miséria. É nisso que o filme ganha.
Apesar de ter Andréa Beltrão no papel central, a maioria dos atores de Salve Geral saiu dos palcos dos teatros paulistanos e, na maioria das vezes, têm coisas melhores a mostrar do que os rostos batidos da televisão global. Salve Geral poderia ser previsível como Zuzu Angel, último trabalho de Rezende, mas não é. Por essas e outras razões que o brilho fajuto do Oscar nem é importante. Ainda que com alguns erros, Salve Geral é um filme nacional raro nos dias de hoje. Se for indicado, ótimo. O importante é que ele não passe batido.
Danilo Saraiva
Terra