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| Cena de Segundas-feiras ao Sol |
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Na noite de sábado serão anunciados os vencedores do Festival de Gramado, mas já é possível fazer um balanço da competição deste ano, com base na qualidade dos filmes apresentados na mostra.
Páreo duro mesmo, só entre os concorrentes latinos, que deram de goleada na seleção nacional. Na seção latina, acusou-se a presença de duas obras de grande garra, o espanhol Segunda-Feira ao Sol, de Fernando León de Aranoa, e o argentino Lugares Comunes, de Adolfo Aristarain, que, pela lógica, deveriam levar os principais prêmios, embora não faltem qualidades ao mexicano Cuentos de Hadas para Dormir Cocodrillos.
O elenco de Segunda-Feira ao Sol, aliás, é tão bom e afinado que o mais justo seria atribuir-lhe um troféu coletivo. Mas à boca pequena, o mais provável é que o Kikito de interpretação seja para Javier Bardem, em sua melhor forma.
Na seção nacional, não houve nenhuma unanimidade, exceto a fragilidade da seleção deste ano. Ainda assim, verifica-se uma discreta predominância de apostas em torno de um provável Kikito de melhor ator para Marco Nanini, protagonista de Apolônio Brasil - Campeão da Alegria, com o jovem Sílvio Guindane, do concorrente De Passagem, acumulando alguma milhagem.
Na disputa do prêmio de melhor filme, Apolônio Brasil dividiu muito as opiniões. Mas, ainda assim, poderá ser uma espécie de solução de compromisso num ano fraco de opções.
O fato de que o veterano Hugo Carvana já venceu antes em Gramado poderá mesmo vir a ser um fator de desempate. Os festivais não costumam resistir ao charme nostálgico de um veterano, ainda mais à impagável alegria e otimismo de Carvana.
Uma outra opção é Dom, do estreante em cinema Moacyr Góes. Produção bem-cuidada, elenco globalíssimo, com o troféu de melhor atriz apontando na direção de Maria Fernanda Cândido em sua encarnação da Capitu, é um concorrente nada desprezível.
Mas, conhecendo-se os fortes brios regionais, poucos acreditam que sairá de mãos vazias o filme gaúcho Noite de São João, de Sergio Silva.
Por outro lado, quem deve sobrar na lista das premiações é o paulista De Passagem. Apesar das falhas inegáveis, o primeiro longa de ficção de Ricardo Elias merece aplausos pela honestidade e despojamento, sem contar seu ímpeto humanista ao trilhar os mesmos temas sociais que geraram abordagens mais agressivas como Cidade de Deus e Carandiru.
Entre os documentários, nada abalou a superioridade do paulista O Prisioneiro da Grade de Ferro, de Paulo Sacramento. Mas como já foi premiado em outros festivais - como o Festival Internacional de Documentários - É Tudo Verdade - o troféu pode até ser concedido a outro filme.
A verdade, porém, é que pertence ao trabalho de Sacramento a grande inovação de postura e linguagem deste gênero. Ao entregar a câmera aos detentos do então existente presídio do Carandiru, o diretor inverteu a mão da exclusão social, dando voz a quem está no fim da linha das agudas desigualdades do país.
Na seção principal dos curtas-metragens, no formato 35 mm, não aconteceram os grandes achados de outros anos.
Os melhores foi o paulista Carolina, de Jéferson De - uma reflexão iluminada sobre o racismo, simbolizada pela figura da escritora Carolina Maria de Jesus -; e o bem-humorado No Bar, de Cleiton Stringuini e Paulo de Tarso Mendonça, além do carioca Castanho, de Eduardo Valente, já exibido na Quinzena dos Realizadores do Festival de Cannes-2003.
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