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Cinema e DVD
Quarta, 12 de novembro de 2003, 17h45 
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Vladimir Carvalho (foto), o cineasta dos documentários, mostra como ninguém o jeito do trabalhador brasileiro e os problemas sociais e históricos do país. Com uma visão, ao mesmo tempo particular e universal, de um sertanejo paraibano, Vladimir consegue criar imagens a partir do olhar de quem vive aquilo que está sendo mostrado e não como alguém de fora. Sua quarta obra, O País de São Saruê, será exibida no dia 25, no Centro Cultural Banco do Brasil, em Brasília, às 18h30. Após a sessão, haverá um debate com o diretor.

O País de São Saruê é de 1971, mas ficou censurado por nove anos durante o governo Médici. Mesmo após a liberação, o filme ainda sofreu restrições. Selecionado para o Festival de Brasília do Cinema Brasileiro, teve a exibição proibida. O documentário faz uma reflexão sobre a seca nos sertões de Pernambuco, Rio Grande do Norte e da Paraíba, seu estado natal, com entrevistas de camponeses, empresários e políticos.

O sertanejo paraibano não se identificou com Brasília à toa. "Aqui é um sertão molhado, com rios e cachoeiras", brinca o cineasta e professor, sempre preocupado com os novos talentos.

Em relação ao Festival de Brasília do Cinema Brasileiro deste ano - que será realizado de 18 a 25 de novembro e conta com seis longas-metragens - Vladimir diz que será um festival de veteranos, uma vez que todos os cineastas selecionados já são conhecidos. "Acho que em vez de seis deveriam ser oito filmes, dando espaço a dois novos diretores", reivindica.

A carreira de Vladimir começou na década de 50, quando assistiu ao documentário O homem de Aran, de Robert Flaherty. "Como não tinha atores e não era convencional, pra mim foi um choque, a gente ficava chapado com aquelas imagens. Foi uma revelação, uma epifania. Se um dia fizer cinema, quero fazer dessa forma, pensei", conta Vladimir, em entrevista à NBR, o canal de TV a cabo da Radiobrás.

Seu primeiro trabalho no cinema foi como roteirista do filme Aruanda, de Linduarte Noronha, que registra a vida de descendentes de escravos, fundadores de um quilombo na Paraíba. Glauber Rocha chegou a escrever, na época, um artigo no Jornal do Brasil sobre o filme, que foi considerado um marco do cinema brasileiro por causa das técnicas de fotografia utilizadas para retratar o sertão.

Morando em Brasília há mais de 30 anos, Vladimir conta que, recém-chegado à cidade, estava em uma barbearia no Núcleo Bandeirante e ouviu algumas pessoas falando sobre uma chacina ocorrida durante a construção da capital. A conversa despertou o interesse do cineasta em registrar o fato, já que nunca se soube ao certo o que aconteceu naquele dia.

"Há vários depoimentos divergentes, alguns dizem que 500 pessoas morreram ali, outros negam o ocorrido". Foram dezenove anos de pesquisa e o resultado foi o filme Conterrâneos Velhos de Guerra, de 1991, que relata o lado negro da construção da capital.

Vladimir jura que é um consumidor de filmes de ficção, mas sua verdadeira paixão sempre foi pelos documentários. "Me realizo e me identifico com aquilo que vejo à minha volta. O Brasil é um país de avanços e contradições e isso é um prato cheio para quem faz documentários".

Barra 68, sem perder a ternura, seu filme mais recente ¿ lançado em 2000, prova que até hoje o cineasta continua se identificando com os "avanços e contradições". A Universidade de Brasília (UnB), construída para ser um exemplo de educação no país, também foi vítima da ditadura militar e das "contradições" brasileiras. Assim que começou a desenvolver novos métodos de educação por meio das idéias de Darcy Ribeiro, sofreu um golpe e foi fechada. A produção de conhecimento incomodou o governo ditatorial e, é claro, virou filme pelas mãos de Vladimir.
 

Agência Brasil
 
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