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| A jovem Ellen Page concorre ao Oscar de Melhor Atriz por 'Juno' |
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Em 2005, no Festival Sundance, nasceu uma estrela, ainda que quase ninguém tivesse percebido. Bem, na verdade alguns executivos de estúdio que assistiram à Menina Má. Com demonstraram imenso entusiasmo com a interpretação da desconhecida Ellen Page, que fazia o papel de uma vingadora psicopata de 14 anos de idade.
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No filme, ela atraía a uma armadilha e torturava violentamente um aspirante a pedófilo. O filme era tão perturbador que, quando lançado, um ano mais tarde, não atraiu audiência alguma. O que espectadores perderam, então, foi o que vieram a encontrar em Juno, em 2007 - o nascimento de uma atriz diferenciada.
Ao contrário de sedutoras colegas que parecem conduzir carreiras paralelas como estrelas dos tablóides, Ellen Page, 20, não se esforça por parecer sexy. Na tela, ela constrói personagens claros, determinados, originais. Em Menina Má. Com, conseguia parecer adorável e persuasiva enquanto manipulava um facão.
Em Juno, ela interpreta uma adolescente que engravida aos 16 anos e decide conservar o bebê e dá-lo em adoção ao casal que escolhe (ou meio casal, como se vê no final). A falta de realismo (ninguém questiona a escolha de Juno) e de postura política terminam esquecidas diante da graça de Page como atriz. Ela parece tão viva na tela, tão única, tão convincente, que torna o personagem, e com ele o filme, completamente críveis.
Seth Rogen ganhou seu primeiro destaque nas telas em O Virgem de 40 Anos, dois anos atrás, mas se tornou conhecido do público de massa como um sujeito comum, engraçado e adorável que conquista a linda loira em Ligeiramente Grávidos.
Em seu primeiro sucesso, ele era mais esbelto e mais confiante, uma espécie de malandro alternativo, o que o fazia fascinante. Em Ligeiramente Grávidos, ele atenuou as grosserias do personagem, o que o tornou mais popular entre o público masculino de cinema, que acima de tudo gosta de se considerar engraçado.
Especialmente no caso da comédia, o papel que dá a um ator seu primeiro sucesso se torna um molde. Uma figura cinematográfica definida nasce, e salta de roteiro a roteiro. Will Ferrell, por exemplo, criou um personagem um tanto burro e outro tanto absurdo, repleto de confiança injustificada e altamente divertido, para o filme O Âncora - A Lenda de Ron Burgundy e o carrega desde então em trabalhos como Talladega Nights e Escorregando para a Glória. Ele muda de profissão ou esporte a cada filme, mas o personagem continua o mesmo.
Essa repetição pode ajudar a explicar por que comédias recebem pouca atenção no Oscar. Ser engraçado diante das câmeras é tarefa quase impossível, mas o pessoal que distribui prêmios não reconhece o fato, e prefere outro tipo de sucesso inicial, que envolva uma metamorfose perceptível.
O trabalho de Rogen em Ligeiramente Grávidos ou o de Michael Cera em Superbad talvez tenham definido uma persona, mas os filmes em que eles exibiram seus talentos sofrem de excesso de piadas genitais. Por mais engraçados que sejam, esses filmes não atendem ao senso de sofisticação que a Academia ostenta sobre si mesma.
Não surpreende, portanto, que Cate Blanchett, atriz que desaparece por trás de cada personagem, tenha recebido duas indicações este ano, no papel de Bob Dylan e no da rainha Elizabeth 1ª. Ela se tornou conhecida em 1997, por Oscar e Lucinda, no qual contracenou com Ralph Fiennes. O filme não fez grande sucesso, mas seu desempenho lhe garantiu o papel principal de Elizabeth, no ano seguinte, e o domínio das telas.
Jennifer Jason Leigh também se funde aos personagens. O primeiro sucesso da atriz foi Georgia (1995), no qual ela interpretava a irmã drogada e aspirante ao sucesso no rock de uma cantora country. Em Margot At The Wedding, este ano, ela volta ao papel de irmã menos competente, mas oferece uma visão completamente diferente da situação. É difícil saber onde o personagem acaba e a atriz começa.
Nem sempre foi assim. No passado, especialmente nos anos de glória dos estúdios, os astros e estrelas eram inventados antes de chegar às telas. O primeiro sucesso era a criação da personalidade do ator nas telas e, supostamente, fora delas. Bette Davis, voluntariosa e sarcástica; Clark Gable, sardônico e ousado; Cary Grant, sedutor e sofisticado. O sucesso para eles foi assinar o contrato com um grande estúdio. Hoje, os atores precisam se reinventar sempre, e portanto as carreiras têm de ser planejadas de forma diferente.
Atores dramáticos raramente escrevem seus diálogos; por isso, um papel revelador, um primeiro passo, define seu sucesso e sua durabilidade, ao garantir que o ator receba propostas e roteiros.
Um exemplo é Amy Ryan, veterana dos palcos de Nova York, que brilhou pela primeira vez no cinema este ano como uma mãe vulgar e drogada em Medo da Verdade. Outro seria Onde Os Fracos Não Têm Vez, dos irmãos Coen, e agora está recebendo convites para os melhores papéis - entre outros o de George W. Bush na cinebiografia do presidente planejada por Oliver Stone. Brolin me disse que, antes do filme dos Coen, seu maior sucesso havia sido em Os Goonies.
Um papel pode mudar tudo
Muitos anos atrás, Jack Nicholson me disse que se lembrava "do momento em que isso aconteceu para mim. Eu estava trabalhando há 12 anos, e aquele papel em Easy Rider mudou minha vida. Eu soube que era um astro assim que percebi a reação da audiência ao meu personagem quando o filme foi exibido no Festival de Cannes. Foi uma ótima sensação".
Quando cabe ao ator escolher seu papel, eles conseguem facilmente proteger uma identidade central - vejam o exemplo de Bruce Willis, que continua a repetir seu personagem definitivo, em Duro de Matar, ou até Harrison Ford, que pouco se afasta de personagens como Indiana Jones. George Clooney, por outro lado, opta por deixar de lado o personagem charmoso que sua boa aparência permitiria que interpretasse com grande facilidade, e até brinca com isso, em filmes como E Aí, Meu Irmão, Cadê Você?.
Apesar disso, a aparência pode ditar personagens, no cinema. Johnny Depp, que se tornou astro com seu trabalho em Edward Mãos de Tesoura, filme no qual usava maquiagem de teatro kabuki e tesouras no lugar dos dedos, costuma esconder seu rosto ridiculamente belo por sob espessas camadas de maquiagem e perucas. Em Sweeney Todd, ele está pálido como um cadáver, e a mecha grisalha em seus cabelos parece se estender aos olhos. Depp integra a maquiagem extrema a que costuma recorrer à sua construção de personagens.
No entanto, a maioria dos aspirantes ao estrelato, como James McAvoy, em Desejo e Reparação, e Jim Sturgess, em Across the Universe, seriam desencorajados a ocultar suas vantagens físicas. De fato, Ryan Gosling, indicado a um Oscar por seu trabalho em Half Nelson, no ano passado, foi recentemente demitido do elenco de The Lovely Bones porque apareceu para filmar ostentando os quilinhos a mais que acreditava necessários ao personagem.
É difícil encontrar o ponto de equilíbrio: um grande ator precisa se perder no personagem, mas a beleza atrai platéias.
Se o inglês Sturgess e o escocês McAvoy conseguirem desenvolver um sotaque norte-americano, terão escolha ilimitada de papéis. Sturgess exibe o charme relaxado que caracterizava o jovem Paul McCartney, e McAvoy é um ator que interpreta dramas pesados com grande sutileza. A falta de astros na casa dos 20 anos de idade pode lhes valer sucessos ainda maiores, se revolverem o problema do sotaque.
O idioma também pode atrapalhar Marion Cottilard, que interpretou a lendária cantora francesa Edith Piaf em Piaf - Um Hino ao Amor. Em um papel que a revelou como atriz séria, Marion muda de imagem e de modo de interpretação e retrata a cantora de sua meninice nas ruas de Paris até sua morte, aos 47 anos. No entanto, nenhuma atriz francesa conseguiu superar a barreira do idioma e se afirmar nos Estados Unidos, ainda que Marion esteja disposta a tentar, e esteja fazendo aulas de inglês para o musical Nine, que co-estrelará com Javier Bardem.
O método de Marion Cotillard é parecido com a dedicação e a atenção aos detalhes que sempre dominaram o trabalho de Daniel Day-Lewis.
Paul Thomas Anderson, diretor e roteirista de Sangue Negro conta que ficou impressionado com o trabalho de Day-Lewis em My Beautiful Launderette, e que nem percebeu, ao assistir a A Room With a View e Em Nome do Pai, que estava vendo o mesmo ator. "Eu mal pude acreditar - três homens tão completamente diferentes!"
Como Jack Nicholson, Day-Lewis se tornou astro no momento em que Launderette começou a ser exibido, e o mesmo pode ser dito sobre o primeiro grande sucesso de Robert De Niro, um dos heróis de Day-Lewis. Em Caminhos Perigosos, o quinto filme de De Niro, ele cativa no papel de Johnny Boy, um bandido pé de chinelo e autodestrutivo.
Paul Dano, que parece ter interpretado seu primeiro papel de grande sucesso em Sangue Negro, este ano, é herdeiro do mesmo legado cinematográfico. Em 2001, ele interpretou um adolescente confuso que se deixa seduzir por um pedófilo, em Sem Saída, e conseguiu revelar tanto a vulnerabilidade quanto o poder de sedução do garoto. Em O Mundo de Jack e Rose, anos mais tarde, ele exala um ar de sexualidade intensa, quase gótica e, embora quase não fale em Pequena Miss Sunshine, domina todas as cenas em que aparece.
Em Sangue Negro, ele interpreta um pregador de cidade do interior, e seu maior inimigo, em lugar do Diabo, é Day-Lewis. Dano substituiu outro ator apenas três semanas antes do início das filmagens, mas é difícil imaginar outra pessoa no papel. Com seu rosto pálido, quase espectral, e seu corpo longilíneo, Dano transmite perfeitamente a sensação de que algo o assombra.
Por enquanto, o público ainda não reconheceu o talento de Paul Dano - ele é diferente demais para que seja aceito de imediato. Talvez, como no caso de Ellen Page, ele demore um pouco e encontrar o papel revelador.
A maior parte dos trabalhos destacados aqui é de novatos - de Tang Wei, dividido entre o dever e o anseio, em Lust, Caution, a Michael Cera, em Superbad. Mas alguns veteranos também surpreenderam com papéis marcantes, como Hal Holbrook, 82, como a voz da razão em Na Natureza Selvagem ou Julie Christie, que ganhou um Oscar em 1965 pelo filme Darling e voltou às telas com brilhantismo em Longe Dela.
A diretora, Sarah Polley, teve de passar oito meses convencendo a atriz a aceitar o papel de uma mulher casada e feliz com o marido, mas vítima do Mal de Alzheimer. À medida que a doença corrói sua memória, ela esquece o marido e se apaixona por outro paciente.
Como todos os papéis inesquecíveis, há algo de singular e de oportuno no desempenho de Christie, que deixa o sotaque britânico de lado em Longe Dela. O retrato que Casey Affleck pinta de Robert Ford, o homem que matou Jesse James, também revela uma revisão da mitologia do velho oeste dos Estados Unidos, e até Sienna Miller, por muito tempo alvo das colunas de fofoca, consegue reverter a situação em Interview, um filme que medita sobre as oscilações do culto às celebridades.
Nosso objetivo, ao destacar esses 15 trabalhos pioneiros, era combinar o choque do novo a um senso de história. É importante lembrar que mudança pode ocorrer em qualquer idade - o processo requer uma mistura complexa de talento, oportunidade e, acima de tudo, um papel especial, em um momento igualmente especial.
Tradução: Paulo Eduardo Migliacci ME
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