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Pode ser difícil superar os traumas do segundo grau. Algumas pessoas jamais conseguem sair da escola, e ainda continuam tentando conquistar a amizade dos alunos mais queridos. Com American Teen, que estréia nesta sexta-feira nos Estados Unidos, Nanette Burstein pode alegar certa experiência sobre o tema. O filme lhe valeu um prêmio como documentarista no festival Sundance de cinema este ano, e gerou uma guerra entre exibidores pela aquisição de seus direitos.
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Burstein co-dirigiu com Brett Morgen dois documentários muito respeitados - On the Ropes, sobre três jovens boxeadores que sonham escapar da pobreza pelo esporte (o filme recebeu uma nomeação ao Oscar); e The Kid Stays in the Picture, uma biografia do extravagante produtor cinematográfico Robert Evans. Mas o que a inspirou a realizar American Teen foi algo de mais pessoal: a intensidade de suas experiências como secundarista, duas décadas atrás, em Buffalo.
Para produzir o filme de 90 minutos, Burstein se mudou para Warsaw, Indiana, e, usando múltiplas câmeras, registrou mil horas de imagem nas vidas de quatro alunos de 17 anos que estavam concluindo o colegial na moderna escola da cidade.
Os alunos podiam ser personagens de um filme de John Hughes sobre a adolescência - a mimada e bonita Megan, cuja vontade imperiosa de triunfar oculta um terrível segredo; o jogador de basquete Colin, que precisa conquistar uma bolsa de estudos pelo esporte ou terá de desistir da universidade e servir o exército; a talentosa boêmia Hannah, pronta a sair da cidade mas temerosa de que tenha herdado o distúrbio bipolar que aflige sua mãe; e Jeff, um solitário membro da banda da escola, engraçado e simpático, mas ostentando um rosto coberto de acne que complica sua busca sarcástica mas determinada por uma namorada.
Observar adolescentes reais como eles é ver egos e identidades em formação da forma mais crua; prontos a entrar no mundo, eles ainda estão descobrindo quem são.
Burstein, 38, parece jovem o bastante para ser aluna de segundo grau, e discutiu a adolescência de seus protagonistas e a sua. Eis alguns trechos da entrevista com ela.
Como você escolheu essa escola e esses meninos?
Estudei 10 escolas em quatro Estados. Queria mistura econômica, aquela sensação de que o tempo não passa, característica do centro-oeste, e uma cidade com apenas uma escola de segundo grau, o que não permitiria aos alunos escapar de seu status social. Minhas entrevistas nas quatro escolas selecionadas estão disponíveis no meu site do Facebook, e é fácil perceber o que as tornava interessantes. Em um drama, seu personagem precisa ter uma forte necessidade; o mesmo vale para um documentário. Você quer alguém que sinta de todo coração a necessidade de realizar alguma coisa, e os quatro tinham essa qualidade.
Fiz o segundo grau em Indianapolis nos anos 60, e me surpreendi ao ver que as experiências deles são tão parecidas com as minhas. Você pensou nisso?
Sim. Estudei numa escola particular, mas a hierarquia social era parecida, e o emocional também. Foi um período extremamente difícil. Eu deixei de ser Megan e me tornei Hannah, em meu último ano. Mas é bom que Warsaw não representasse uma reprodução de minha escola. Isso me permitiu mais objetividade e menos raiva.
O que causava essa raiva?
Não me encaixar, me sentir julgada, sentir que eu não era boa o bastante.
Mesmo que você tenha sido aceita pela turma dos bons?
Eu fui. Mas nunca me senti parte dela. Eu era judia, não era rica, e não sentia que eles fossem meus amigos de verdade. Somos vulneráveis naquela idade. Mas eu tive sorte. Passei um ano em Barcelona bem na época em que a Espanha começava a se descontrair, depois da morte do ditador Francisco Franco, e voltei mudada, com o cabelo moicano. O corte de cabelo não durou, mas a vontade de ser cineasta sim. Tornei-me mais parecida com Hannah, sem precisar ir a extremos.
Você considera que os garotos que filmou diferem dos jovens da sua geração? São meninos de cidade pequena, mas eles compartilham de um grande arsenal de conhecimento com os adolescentes urbanos, devido à mídia e à Internet.
Fiquei impressionada com a capacidade de auto-análise deles, e de articular sua situação. Isso pode vir dos blogs, MySpace, YouTube etc.
O que você pensa sobre a atividade sexual dos jovens de Warsaw?
Foi uma surpresa. Tinha um senso da coisa, ainda que as pessoas não falassem abertamente a respeito. A comunidade é conservadora, e as meninas supostamente deveriam ser virgens. Nem todas eram, mas me surpreendi por tantas terem optado por manter a virgindade. Havia alguns casos, e certamente algumas meninas engravidaram. Aborto não é comum.
Parecem meus anos de segundo grau. Fiquei triste por ver que as meninas continuam a ser penalizadas por sexo. Na minha época, uma menina podia ser arruinada por isso.
É a mesma coisa no filme. As meninas continuam a ser julgadas por seu nível de promiscuidade, e os rapazes a serem parabenizados pelo deles.
Você continua a manter contato com seus protagonistas?
Sim. Todos eles acabaram de concluir seu segundo ano de faculdade, a esta altura, e agora eles se vêem no filme como pessoas completamente diferentes do que se tornaram. Acrescentamos um epílogo que mostra o que eles estão fazendo agora.
E quanto ao seu epílogo pessoal?
Eu gostaria de fazer um filme de ficção. Já dediquei muito tempo a tomar a vida real e moldá-la como narrativa. Agora, gostaria de tomar uma narrativa e tentar fazer com que ela se pareça com a vida real.
Tradução: Paulo Migliacci
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