Panorama geral do sítio arqueológico de Tróia, na atual Turquia
Foto: Brian Rose/Universidade de Cincinnati/Divulgação
Há mais de 15 anos, arqueólogos dos dois países escavam uma pequena área perto do litoral turco, onde a cidade de Tróia realmente existiu. Esses arqueólogos contam que, como o filme mostra, Tróia foi realmente destruída por volta do ano 1200 a.C., mas não por apenas uma guerra.
O professor Brian Rose, da Universidade de Cincinnati, nos Estados Unidos, diz que houve, na verdade, várias "Guerras de Tróia".
Ele explica que o filme com Brad Pitt, que foi inspirado na Ilíada de Homero, é uma história "resumida e romanceada" do que realmente aconteceu na cidade. "É concebível que, como aconteceram muitas guerras em Tróia na Idade do Bronze, envolvendo vários inimigos diferentes, no curso de vários anos, essas guerras tenham sido incrementadas e fundidas pelo relato de Homero em uma guerra com um só inimigo em um período curto de tempo", explica.
Rose diz que, no entanto, o motivo das guerras é muito mais mundano do que o que o filme apresenta. As guerras foram travadas provavelmente por causa da posição estratégica de Tróia e não por causa do rapto de Helena, "a mais bela mulher de sua época", como conta a Ilíada. Segundo o professor, "não há nenhum tipo de evidência" de que uma bela mulher estivesse envolvida na história.
Cavalo de Tróia
Quanto ao famoso cavalo, o presente dado "pelos Deuses" aos troianos, onde os soldados gregos estariam escondidos para o ataque, também não há nenhuma evidência de que tenha existido. "Até na época dos gregos, já se duvidava da existência do cavalo."
Rose diz que está muito interessado em assistir ao filme para ver como Tróia é retratada e disse que já deu uma olhada no seu trailer. O professor diz que conseguiu ver apenas pelo trailer "que livros os produtores do filme leram" para reproduzir as roupas e a arquitetura da época, mas disse achar "estranho" não ter tido conhecimento de que especialistas foram consultados para a realização da película.
Do lado alemão, a equipe liderada por Manfred Korfmann diz ter muito interesse no filme, mas admite não ter nada a ver com a sua produção. Por isso se recusa a falar sobre ele com a imprensa.
Mesmo assim, o grupo da Universidade de Tübingen divulgou um comunicado em que tenta desmistificar como "irreais" ou "improváveis" algumas das teorias sobre Tróia descritas por Homero e reproduzidas por computadores no filme.
Barcos
Um dos mitos é que os gregos teriam chegado a Tróia em mais de mil barcos, como mostram os efeitos especiais da produção hollywoodiana. "Os gregos de Micenas não teriam como ter juntado uma força marinha tão grande", dizem os arqueólogos alemães.
A própria existência de Homero é questionada, e a forma como ocorreu a destruição de Tróia também. "As provas indicam uma catástrofe com fogo."
Os arqueólogos admitem, no entanto, que Tróia pode ter sido cercada por dez anos, como diz a história contada por Homero. "Na Idade do Bronze, Tróia era bem fortificada, com grandes torres, portões altamente protegidos e muros em torno de toda a cidade, além de fossas de defesa. Era um local extraordinariamente difícil de ser conquistado. Então, é provável que guerras em Tróia tenham levado muito tempo."
Mistura de elementos
Como diz o professor de literatura grega da USP André Malta, autor de O Resgate do Cadáver. O Último Canto de Ilíada (Estudo e Tradução), "mesmo sendo ficção, há vários elementos históricos na obra de Homero". "Os gregos viam os heróis épicos como seus antepassados longínquos e aqueles fatos como tendo realmente acontecido", afirma o professor.
"Os vestígios arqueológicos nos mostram que várias Tróias foram destruídas no mesmo sítio e que a realeza micênica do século 12 a .C. era muito semelhante à retratada por Homero". E completa: "O fato é que a Ilíada é uma mistura de elementos lingüísticos, sociais e históricos".
Malta, que só viu um trailer do filme e obteve informações pela mídia, considera normais algumas das adaptações da Ilíada feitas na versão hollywoodiana. Para ele, "o filme fez bem" se suprimiu ou diminuiu o papel dos Deus na história. "Mostrar para o espectador os Deuses em ação é bastante complicado. Aristóteles já dizia isso."
Sobre outra questão que gerou polêmica, a suposta homossexualidade de Aquiles e sua relação com o colega Pátroclo, que não é retratada no filme, Malta diz que não há "nenhuma referência clara" na história original. "Homero deixa que cada um de nós tire as suas próprias conclusões, e o ideal seria que o filme fizesse o mesmo."
Para responder mais dúvidas sobre Tróia, como por exemplo onde ficavam os cemitérios na época, a equipe de americanos e alemães que escava a cidade promete continuar com a expedição na Turquia atual. A próxima "temporada arqueológica" deve ocorrer entre 12 de julho e 15 de setembro deste ano.
- Redação Terra













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