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Cinema e DVD
Sábado, 15 de novembro de 2008, 18h10  Atualizada às 18h18
Daniel Filho conta por que ignora festivais de cinema
 
Carlos Helí de Almeida
 
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Aos 71 anos e dono de uma extensa folha de serviços prestados à TV, o ator e diretor Daniel Filho é cada vez mais um realizador de cinema. À frente da produtora Lereby, já mandou vários títulos para o circuito este ano, como Chega de Saudade, de Laís Bodanzky, Última Parada 174, de Bruno Barreto, e A Casa da Mãe Joana, de Hugo Carvana. Esta semana terminou de rodar Tempos de Paz, seu sétimo longa-metragem como diretor em oito anos, enquanto se prepara para lançar, em janeiro, a comédia Se Eu Fosse Você 2, seqüência do sucesso de 2006.

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Protagonizado por Tony Ramos e Dan Stulbach, que viveram os personagens do texto de Bosco Brasil nos palcos, Tempos de Paz promove o encontro entre um torturador do governo Vargas com um ex-ator polonês confundido com um nazista, na alfândega do Rio de Janeiro dos anos 40.

Apesar da dupla global como cabeça de elenco, promete ser o longa-metragem menos convencional do autor de uma série de sucessos populares do cinema nacional recente, como A partilha (2001). Não que Daniel tema um revés na bilheteria: "Lido com o público e dependo dele há mais de 50 anos. Sei quando encontro uma história que lhe interesse ¿ defende-se, durante os intervalos da filmagem na antiga fábrica da Behring, no bairro Santo Cristo, Centro do Rio".

Por que você viu um filme numa peça com dois personagens no palco?
Em primeiro lugar, é uma história muito forte. Não conheço ninguém que assistiu à peça que não tenha saído emocionado do teatro. Segundo, o Tony Ramos e o Dan Stulbach conseguiram construir um raro momento de magia no palco. Aquilo deveria ser registrado. Aliás, eu não faria o filme sem esses dois atores. Mas já vi muitos filmes que dariam uma boa peça, e vice-versa.

O que você quer comunicar ao público com Tempo de Paz?
Quero passar a mesma pergunta da peça: qual a função da arte num mundo tão conturbado quanto o nosso? A história se passa nos anos 40, no pós-guerra, mas a situação é aplicável aos tempos atuais, cheios de guerras, balas perdidas, de falências econômicas e ecológicas. É aplicável principalmente no Brasil, que tem um presidente que confessa que nunca foi ao teatro e onde atores fazem qualquer coisa para aumentar a popularidade. Quem nasceu há mais tempo, como eu, já fez essa mesma pergunta várias vezes.

A peça o fez lembrar de algum filme ou um tipo de cinema em particular?
Ela me lembrou muito Persona, do (Ingmar) Bergman (1918-2007). Dois personagens diante da câmera, e nada mais. Bergman sempre foi muito teatral, trabalhava com poucos atores, tramas simples. Também me lembrou dos primeiros filmes do (Krzysztof) Kieslowski (1941-1996), alguns deles feitos para a televisão. Os filmes dele tinham um centro dramático forte, propício ao trabalho de ator; eram filmes de interpretação.

Então podemos dizer que Tempos de Paz é um filme de ator?
Com certeza. Meu trabalho é não atrapalhá-los. Pretendo interferir o menos possível entre eles. Mas é bom lembrar que a câmera não é estática. A versão em DVD virá com um registro da peça no teatro.

Não teme que um filme de fortes raízes teatrais possa afastar o público de seus trabalhos, mais populares?

Claro que Tempos de Paz não é um Se Eu Fosse Você (3,7 milhões de espectadores). De qualquer forma, é muito difícil prever que filme fará sucesso ou não. Quando fiz Primo Basílio (2007), não imaginava que ele atingiria 800 mil pagantes, por exemplo. E olha que misturei Eça de Queiroz (escritor português) e Nelson Rodrigues (dramaturgo e cronista) na mesma pessoa; por isso a história de Primo Basílio se passa nos anos 50. Estamos falando de uma adaptação literária, que tinha todo o jeito de um melodrama do (Douglas) Sirk (Imitação da vida). Tenho procurado não me repetir. Tirando Se Eu Fosse Você 2, que estréia em janeiro, nunca repeti gêneros.

Sua meta é fazer filmes populares?
Não vejo problema em filmes que fazem muito público. O que me desagrada é o cinema feito com intenções popularescas. Tem gente que faz filme com o propósito de conquistar 3 milhões de pessoas, e acaba amargando 300 mil.

Por que nunca inscreveu seus filmes em festivais nacionais, como Gramado e Brasília?
Não acho que filmes devam concorrer uns com os outros. E também a crítica nunca foi muito gentil comigo. Alguns conseguem ser condescendentes. Acham que eu faço filmes de menor importância. Uma recepção ruim num festival pode prejudicar a carreira de um filme quando lançado. E, a bem da verdade, festival brasileiro não ajuda o faturamento de um filme. Quem se lembra do vencedor de Gramado do ano passado?

Não vê o prêmio de um júri de festival como o reconhecimento da classe?
Você sabe como os júris são feitos? São catados a laço, porque ninguém quer vestir a toga, julgar o trabalho dos colegas, ou possíveis empregadores. Já fui júri de festival, em priscas eras, no fim dos anos 60, e vi como funciona. É possível manobrar os jurados. Já venci no voto popular por duas vezes, e no voto popular e no oficial por uma vez, no Festival Internacional de Miami.

O fracasso comercial é algo que o assusta?
Nenhum filme que fiz deixou de se pagar. Tempos de paz é o sétimo que faço em oito anos, média considerável em termos de continuidade profissional de um cineasta brasileiro. Há o Moacyr Góes, que até consegue lançar mais de um título por ano, mas é um diretor do (produtor) Diler (Trindade), faz qualquer filme que ele mandar.

Qual o segredo do sucesso da grife Daniel Filho?
Sempre corri atrás de um prato de comida. São 56 anos de profissão. Se contar o tempo em que trabalhei no circo e no teatro, onde a conquista do público é fundamental, são 65 anos de atividade, em contato direto com o espectador. Faço filmes que tenham histórias boas e acho que, a esta altura da vida, saberia reconhecer uma. Um amigo meu, ligado à distribuição, me disse que ter meu nome num cartaz de um filme é uma coisa boa. O público me associa a um produto de qualidade, bem-acabado, de fácil entendimento. Outro amigo me disse que eu sou o único diretor brasileiro que faz "filmes argentinos".

O cinema brasileiro não tem tradição em seqüências. Por que você resolveu fazer Se Eu Fosse Você 2?
Isso se você não considerar os filmes do Renato Aragão ou mesmo os da Xuxa como um conjunto de continuações de uma mesma história... A idéia não me agradou, a princípio. Com a repercussão do primeiro, a Fox (distribuidora) me pediu um segundo. Disse que não, só faria uma seqüência se encontrasse uma história tão boa ou melhor do que a primeira. Isso só aconteceu um ano depois. Aí topei. O roteiro parte também do princípio da troca de corpos entre o casal de protagonistas, mas acrescenta situações que preenchem lacunas do original.
 

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