Brilhante carreira no cinema de Marlon Brando caminhou ao lado de tragédias pessoais pelas quais atravessou
Foto: AP
Metódico, Brando reescreveu as regras da interpretação e, dono de uma sensualidade impactante, redefiniu o conceito de astro do cinema.
Um dos seus papéis mais memoráveis foi a interpretação do patriarca mafioso em O Poderoso Chefão, de Francis Ford Coppola.
Nos últimos anos, ele continuava ocupando as manchetes dos jornais, não por sua brilhante atuação, mas pelas tragédias pessoais que atravessou.
"Ele tinha o que se poderia chamar de combinação perfeita", definiu certa vez Rod Steiger, co-protagonista de Sindicato de Ladrões (On the Waterfront, 1954). "Era dono de um talento incrível, era um símbolo sexual e se negava a assumir compromissos. Tornou-se a expressão de uma interpretação verdadeira e realista, que nunca teria existido sem ele", acrescentou.
Trabalhando com os melhores diretores de seu tempo, Brando se tornou o principal destaque da nova geração de atores do pós-guerra, com filmes como Uma Rua Chamada Pecado (A Streetcar Named Desire, 1951), Viva Zapata! (1952) e O Selvagem (The Wild One, 1954).
Bud, como o chamava sua avó, nasceu em 3 de abril de 1924 no seio de uma família simples de Omaha (Nebraska). Sua mãe era uma atriz depressiva e alcoólica e seu pai, um vendedor mulherengo, "com o sangue composto de testosterona, adrenalina, álcool e ira", segundo as palavras do próprio ator.
Depois de ser expulso de uma escola, o jovem Brando mudou-se para Nova York para estudar arte dramática no conservatório de Stella Adler e no Actors Studio, onde aperfeiçoou o "método" Stanislavsky, que consiste em recorrer às próprias emoções para encarnar um personagem.
Em 1947, Brando causou furor na Broadway no papel do brutal Stanley Kowalsky na adaptação da peça Um Bonde Chamado Desejo, de Tennessee Williams, que lhe abriria as portas de Hollywood quatro anos depois com uma versão cinematográfica de Elia Kazan. No Brasil, o filme ganhou o título de Uma Rua Chamada Pecado.
Inicialmente, ele rejeitou todas ofertas da meca do cinema americano. Em 1948, chegou a dizer que os produtores de Hollywood "nunca fizeram um filme honesto em sua vida e provavelmente nunca farão".
Dois anos depois, porém, estreou com grande sucesso no filme Espíritos Indômitos (The Men), de Fred Zinnemann, no qual interpretou um soldado paraplégico, para depois vir a atuar em Uma Rua Chamada Pecado.
Sua interpretação neste último filme lhe valeu, em 1952, a primeira das quatro indicações consecutivas ao Oscar de melhor ator, e serviu para eternizar a imagem de Brando vestindo uma camiseta branca suada.
Em seguida, ele interpretou o famoso revolucionário mexicano em Viva Zapata!, também sob a batuta de Kazan, e Marco Antonio em Júlio César (1953), de Joseph Mankievicz, para depois se tornar o símbolo da juventude rebelde, ao viver o líder de um grupo de motoqueiros no filme O Selvagem, de Laslo Benedek.
"Nenhuma das pessoas que estavam envolvidas no filme imaginavam que ele incitaria uma rebelião juvenil", escreveu Marlon Brando em sua autobiografia Canções que Minha Mãe me Ensinou (Songs My Mother Taught Me), publicada em 1994.
Brandon chegou a fazer ainda alguns filmes que destoavam de seu currículo, como Casa de Chá do Luar de Agosto (Teahouse of the August Moon, 1956), onde curiosamente vivia um asiático, e o musical Eles e Elas (Guys and Dolls, 1955), onde cantou ao lado de Frank Sinatra.
Brando ganhou dois Oscars de melhor ator: em 1955 pelo retrato de um ex-boxeador fracassado, em Sindicato dos Ladrões, de Elia Kazan, e em 1972, com o papel de Dom Corleone em O Poderoso Chefão, que marcou a recuperação de sua carreira.
Seu poder de atrair público diminuiu nos anos 60 devido à sua participação em filmes considerados medíocres.
Embora tenha merecido o Oscar por O Poderoso Chefão, Brando não compareceu à cerimônia de entrega e enviou no seu lugar a (suposta) índia Sacheem Littlefeather, na verdade uma atriz hispânica, para manifestar ao público o descontentamento com a forma como Hollywood tratava os nativos americanos.
A polêmica cercou sua vida após a estréia do polêmico drama erótico O Último Tango em Paris (1973), de Bernardo Bertolucci, no qual interpretou um homem de meia-idade, desorientado após o suicídio da esposa.
Reconciliado com a fama, Brando - que dizia atuar para "sobreviver" - fez o filme mais comercial de sua carreira, Superman - O Filme (1978), de Richard Donner, no qual interpretou Jor-El, o pai do super-herói, antes de encarnar o desesperado coronel Kurtz em Apocalypse Now (1979), de Francis Ford Coppola.
Depois disso, anunciou repentinamente sua aposentadoria para se dedicar a fundo às causas sociais, embora tenha continuado fazendo aparições esporádicas no cinema. Seu último filme, A Cartada Final (The Score), estreou em 2001.
No fim da vida, Marlon Brando tornou-se o herói trágico de uma sórdida história familiar.
Ele teve pelo menos nove filhos, frutos das várias relações que mantinha com mulheres geralmente morenas e exóticas, entre elas as atrizes porto-riquenha Rita Moreno e a mexicana Movita Castenada.
Em 1990, seu primogênito Christian, fruto do casamento com a primeira esposa, a atriz Anna Kashfi, assassinou o namorado de outra filha do ator, Cheyenne, nascida de sua relação com a taitiana Tarita Teriipaia. Christian passou cinco anos na prisão e Cheyenne se suicidou em 1995, depois de uma longa depressão.
Obeso, Brando chegou a pesar 160 quilos e voltou a ficar recluso na Polinésia francesa, paraíso que o encantou durante as filmagens de O Grande Motim (Mutiny of the Bounty, 1962) - onde ele conheceu Tarita - e onde costumava passar longas temporadas desde que comprou a ilha de Teti'aroa, em 1966.

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