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| Kevin Tancharoen dirige a refilmagem do sucesso 'Fama' |
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Num dia cinzento de fevereiro alguns jovens atores se reuniram em um típico quarteirão do Harlem espanhol - entre o Stickball Hall of Fame Place e o Tito Puente Way - para gravar uma cena da refilmagem de Fama. O ensaio foi breve: "Como se diz: traga seu traseiro aqui em espanhol?", perguntou a outro ator Kristy Flores, que representa uma dançarina chamada Rosie, usando outro termo mais forte e fazendo anotações em seu roteiro.
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Em seguida, ela passeou pela rua com um inconfundível andar de Nova York - Flores, 20, cresceu na seção de Little Italy do Bronx, e foi descoberta no Bronx Dance Theater - e disse suas falas, com um autêntico sotaque local: "Victor, ei Victor", gritou ela, incluindo uma obscenidade em espanhol, "abra a porta!".
Mas a cena - aliás, a maioria das cenas de Flores - não foi incluída no filme, um acidente com dez tramas, cinco complicados números musicais e a missão de tentar revitalizar uma franquia que deu origem a uma série de TV, um musical e incontáveis versões de sua música tema, vencedora do Oscar ("Fame! I'm gonna live forever! I'm going to learn how to fly!" - "Fama! Vou viver para sempre! Vou aprender a voar!"). Alternadamente sombrio, melodramático e esperançoso, o filme original, lançado em 1980, atingiu o status de cult entre uma geração de artistas para quem oferecia um primeiro vislumbre da vida artística.
A refilmagem, que estreia nesta sexta-feira (25) nos Estados Unidos, repousa sobre os ombros de um diretor que é mais novo que seu material original: Kevin Tancharoen, 25. Esse é seu primeiro longa metragem. No set, de jaqueta, jeans e tênis, ele parecia pouco mais velho que seu elenco. Na realidade, ele era até mais novo que alguns deles.
Mas Tancharoen não tem a mesma origem que seus jovens atores, a maioria dos quais amplamente desconhecidos, ou seus colegas de filmagem. Ao invés de estudar numa escola preparatória de artes, ele passou seus anos de adolescência na estrada, como um dançarino de fundo nas turnês de Britney Spears. Foi educado em casa e por fim obteve um diploma do ensino médio; em seu tempo livre, ele aprendeu sozinho a filmar e usar softwares recém-lançados para edição caseira.
Antes dos 20 anos, ele já criava shows de multimídia para Spears e outros artistas. Se um caminho para a descoberta artística é o rigor institucional de uma escola do tipo Fama, e o caso clássico de Lana Turner, descoberta numa lanchonete, é outro, Tancharoen é um autêntico faça-você-mesmo de alta tecnologia. (Apesar de que estar no lugar certo na hora certa também ajudou.)
Depois de se encontrar com muitos diretores, Gary Lucchesi, um produtor da Lakeshore Entertainment, que desenvolveu e lançou Fama com a MGM, contratou Tancharoen após apenas duas reuniões. "Pedi a ele que me contasse sua história e o que percebi rapidamente é que, embora fosse um cara jovem, ele tinha assumido grandes responsabilidades em sua vida", disse ele.
Encarregá-lo de um projeto de grande visibilidade como Fama, em que há muito em jogo - o orçamento é de mais de US$ 25 milhões e o elenco inclui Bebe Neuwirth, Kelsey Grammer, Charles S. Dutton e Megan Mullally como professores - foi uma grande aposta. Porém, Lucchesi e seus parceiros sentiam que, dada sua juventude e seu histórico de espetáculos, Tancharoen era excepcionalmente adequado para isso.
Lucchesi, cujo pai era caminhoneiro, também gostou do fato de Tancharoen, filho de imigrantes tailandeses e que frequentava sets de filmagem com seu pai, ter crescido na classe média. "O fato de ele ser filho de um caminhoneiro e eu também foi uma coisa boa", disse ele.
Em uma entrevista em Los Angeles, onde ele ainda mora e a maioria das cenas internas foram filmadas, Tancharoen descreveu sua trajetória de carreira incomum. Ele começou dançando, principalmente hip hop, como diversão, após acompanhar algumas aulas com sua irmã, a hoje roteirista Maurissa Whedon. Aos 12 anos, ele entrou numa companhia fundada pelo coreógrafo Wade Robson, na época ainda um adolescente.
"Ele se tornou meu melhor amigo", disse Tancharoen, e eles trabalharam juntos frequentemente. Tancharoen também estudou com Marguerite Derricks, uma coreógrafa para televisão e cinema, que ele depois contrataria para coreografar Fama. (Debbie Allen, que estrelou o filme e a série de TV originais, que ela também coreografou, faz uma breve aparição na refilmagem como a diretora da escola.)
Enquanto o primeiro filme focava questões sociais - analfabetismo, pobreza, aborto, sexualidade - e tinha uma malandragem das ruas, a refilmagem está interessada principalmente nas pressões de equilibrar aspirações profissionais e desejos artísticos. Lucchesi disse que a mudança se deu em função dos tempos.
"Achamos que a questão de um personagem ser homossexual, que estava no primeiro Fama, é muito menos surpreendente agora; as pessoas são bem abertas com relação a isso", disse ele. (Contudo, é feita uma alusão a isso na refilmagem.)
Disse ainda: "Uma carreira artística é algo que é levado a sério a partir dos 12 ou 13 anos, e existe enorme competição para se entrar nessas escolas públicas de ensino médio, por isso o foco está no desafio e nas realizações".
Isso era evidente entre os membros do elenco, a maioria dos quais se apresentou quase a vida toda; no set, muitos jovens atores, nenhum dos quais era nascido quando o Fama original foi lançado, já falavam como a Broadway ou a dança eram seu "primeiro amor". Os produtores estavam atentos.
"No momento em que escalamos esses garotos, o roteiro mudou", disse Tancharoen. "Eles estão entrando na versão cinematográfica de suas próprias vidas".
Mas administrar essas histórias e as marcas do primeiro filme - o medo do palco e o primeiro amor, a desaprovação dos pais e os "testes do sofá" - foi difícil: a versão do diretor ficou com três horas e meia. "Eu havia filmado demais os detalhes", disse Tancharoen.
A versão mais curta também tem um olhar astuto: para expressar o crescimento dos estudantes, Tancharoen começou com um estilo de filmagem de mão e passou para tomadas mais suaves em câmeras sobre trilhos à medida que eles amadureciam.
A filmagem também foi educativa para o elenco, que passou por um treinamento intensivo para aperfeiçoar sua dança ou aprender um instrumento. Antes do início das filmagens, Walter Perez, 27, que interpreta Victor e cresceu se apresentando em programas extracurriculares do sul de Los Angeles, visitou algumas das locações de seu personagem em Nova York.
"Fui à escola do Fama só para ter uma ideia de como é", disse ele, "e é, tipo, uau, todo mundo está tão concentrado e é tão profissional. Nas aulas de atuação que estão fazendo, tipo, exercícios de respiração. Gostaria de ter frenquentado uma escola assim".
Para Tancharoen, os caminhos de seu jovem elenco não lhe pareceram muito diferentes de sua própria trajetória. "Eles enfrentam a mesma quantidade de trabalho", disse ele.
Mesmo antes de começar a trabalhar em Fama, Tancharoen já tinha uma ideia para outro filme, "um tipo singular de filme de dança", disse ele, "que eu gostaria de lançar, que é essencialmente filmes como Entre Nesta Dança e O Poder do Ritmo, mas que viajaria como Os Selvagens da Noite, situado no pano de fundo de Sin City - A Cidade do Pecado ou 300, e usando os efeitos visuais de Kung-fusão. Loucura, não é? Totalmente maluco". Chama-se Arcana e Brett Ratner será o produtor.
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