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Cinema e DVD
Quarta, 30 de setembro de 2009, 15h37  Atualizada às 15h45
Veja como era Coco antes de se tornar Chanel
 
Junko Kimura /Getty Images
Audrey Tautou na première de Coco Antes de Chanel
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Ainda que O Fabuloso Destino de Amelie Poulain a tenha estabelecido junto às audiências dos Estados Unidos como uma atriz engraçadinha e fofa, a essência do trabalho de Audrey Tatou sempre esteve mais relacionada à melancolia, a uma espécie de tristeza sistêmica nascida de uma capacidade inata de observação impiedosa.

Os olhos escuros de Tatou parecem ver sempre a verdade das coisas, e em Coco Before Chanel ela encontra seu papel ideal, ao interpretar uma mulher cujo olhar direto tudo absorvia e tudo compreendia ¿do desespero de sua situação pessoal ao ridículo da moda feminina na virada do século 19 para o 20.

Gabrielle "Coco" Chanel já parece ser dura na queda no início da história, quando a conhecemos trabalhando como garçonete e cantora em um cabaré (a canção "Coco" é sua marca registrada); ela vive em um orfanato com a irmã, Adrienne (Marie Gillain). Ainda que a adversidade pareça ter ensinado sua irmã a confiar nas pessoas e a sempre esperar o melhor de cada uma delas, a lição aprendida por Coco é inteiramente diferente: a de que ela está sozinha, e de que demonstrar qualquer fraqueza seria a morte.

Coco Chanel não é o tipo de heroína que desperte afeto, mas um dos pontos fortes do filme é o fato de que a diretora Anne Fontaine permita a Tatou interpretar Chanel da maneira fria e impiedosa que ela ostenta ao longo do filme. No papel de Adrienne, Marie Gillain oferece o lado caloroso do filme, ainda que se torne claro já desde o começo que ela é a sonhadora, a romântica, e que é Coco que sabe como as coisas realmente são. O começo do século 20 é um labirinto repleto de armadilhas para as mulheres, especialmente para aquelas que nasceram pobres: prostituição, miséria, trabalho braçal. Coco é uma mulher dura porque exibir qualquer sentimentalismo poderia conduzi-la ao desastre.

Por meio de seus esforços incansáveis de autoafirmação, Coco se torna amante ocasional e hóspede permanente de Etienne, um playboy rico, interpretado pelo ator belga Benoit Poelvoorde como um homem escravizado pela decadência. Trata-se de um belo retrato de fraqueza e superficialidade, combinado a resíduos de decência e de dolorosa autocrítica. O trabalho de Poelvoorde talvez seja o melhor do filme. Alessandro Nivola interpreta o segundo homem na vida de Coco, Boy Capel, um despreocupado jogador inglês de polo que encoraja as ambições de Coco no mundo do design.

Coco Before Chanel é essencialmente o retrato de uma artista, e o filme se preocupa em revelar o desenvolvimento da visão de Coco quanto ao design. Muito antes que ela começasse a desenhar roupas femininas, ela é mostrada caminhando entre as mulheres de sociedade, admirada diante das múltiplas camadas de roupas e dos corpetes apertados que as mulheres aceitavam como uma obrigação inevitável. O filme sugere que é a posição de Coco como alguém que vive fora da sociedade que permite a ela contemplar a situação com um olhar novo, e assim criar um estilo moderno e simplificado que se tornou parte essencial da emancipação feminina no século 20.

Fontaine e Tatou não fingem que essa emancipação foi fácil. Coco Before Chanel é narrado inevitavelmente como a história de um triunfo, mas a alma de Coco está fatigada quando ela chega ao seu destino. Tatou merece atenção especial na cena em que Coco assiste à passagem das modelos vestidas com as roupas que ela criou. O foco que ela revela é intenso, como se tivesse concentrado tudo que tem e tudo que é em um único ato de criação: de moda e de si mesma.

Ficha Técnica:
Coco Before Chanel:
Drama, com Audrey Tatou, Benoit Poelvoorde, Alessandro Nivola e Marie Gillain. Direção de Anne Fontaine. Censura, 13 anos. Duração: 105 minutos. Em francês, legendado.
 

The New York Times
 
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