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Cinema e DVD
Domingo, 1 de novembro de 2009, 09h05  Atualizada às 09h06
Penélope Cruz e Almodóvar: almas gêmeas do cinema
 
Getty Images
Penélope já trabalhou diversas vezes com Almodóvar
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Sentada na suíte de um hotel em East Side no início de outubro, de frente para o roteirista e diretor Pedro Almodóvar, Penélope Cruz pegou uma grande revista lustrosa e observou com admiração a fotografia de Uma Thurman na capa. "Ficou bom", ela disse, mostrando a foto para Almodóvar, enquanto seus olhos buscavam sua aprovação.

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Ele se inclinou em direção à foto, avaliando com entusiasmo a pose e os loiros cabelos curtos de Thurman. "Sim, sim", ele disse a Cruz, acelerando do inglês para o espanhol enquanto sua mente começava a percorrer trilhos de celulóide. "As atrizes, quando chegam perto dos 40, cortam o cabelo. Elas parecem mais jovens assim. Lembra a Sharon Stone? Como ela cortou o cabelo quando tinha em torno de 40, 42? Ficou bom!"

Ele pareceu, por um momento, paralisado pela capa, enquanto a imagem de Thurman entrava em sua mente, se combinando e cruzando com milhares de outras imagens mentais de atrizes. "É verdade", ele disse, rindo. "Sou mesmo fascinado por atrizes, por tudo que elas fazem, até mesmo pelo camarim, que é o lugar sagrado de qualquer atriz. E sou especialmente fascinado por atrizes que interpretam atrizes."

E é precisamente isso que Cruz faz em Abraços Partidos, a quarta colaboração de Almodóvar com a atriz - e, segundo ela, sua mais difícil. No filme, que encerrou o Festival de Cinema de Nova York no outono americano e estreará nos cinemas no dia 20 de novembro, ela interpreta Lena, uma mulher sustentada pelo amante rico que tem a chance de realizar, ainda que brevemente, seu sonho há muito tempo adiado de ser uma estrela de cinema, ao se envolver romanticamente com um diretor (Lluis Homar).

Lena, uma figura de cortar o coração cuja própria identidade é tão precariamente formada que a faz desejar avidamente se tornar outra pessoa (no início do filme, ela se veste e se arruma como Audrey Hepburn), é "talvez a personagem mais triste que já criei", Almodóvar disse. "Ela tem um passado do qual não gosta nem um pouco, então quando percebe que pode imitar alguém, é como se tivesse uma vida nova. Ela é durona - um anjo caído. E esse é o maior desafio que já dei à Penélope até agora."

Os filmes de Almodóvar com Cruz frequentemente encontram um lugar terno, onde as armadilhas ornamentais do melodrama acabam desaparecendo para revelar emoções e motivos mais profundos e complicados. Eles também ofereceram a Cruz algumas de suas oportunidades mais ricas. No suspense de 1997 Carne Trêmula, ela domina os primeiros 10 minutos, interpretando uma prostituta pobre na Madri de 1970 que dá à luz em um ônibus da cidade.

Dois anos depois, quando Almodóvar estava montando o elenco de Tudo Sobre Minha Mãe, que ganharia o Oscar de melhor filme estrangeiro, ele a convocou novamente, dessa vez para interpretar uma freira. Mesmo ao ter um caso com um travesti e se tornar HIV positiva, ela continua sendo a presença mais doce e pura do filme. "Fiquei surpresa quando ele me falou do que o papel se tratava", ela se recorda. "Mas pensei, 'Apenas Pedro poderia tornar isso real, porque ele não faz julgamentos contra nenhum dos personagens.'"

E no drama de 2006 Volver, Cruz mereceu sua primeira indicação ao Oscar por interpretar uma viúva determinada que era um amálgama de mulheres da infância de Almodóvar em La Mancha, com ainda uma pitada de Sophia Loren, para inserir Cruz na trama da história cinematográfica que permeia todo o seu trabalho.

"Alguém me perguntou, 'Ela é a sua musa?'", disse Almodóvar, cujas colaborações de longo prazo com atrizes, começando com Carmen Maura ao longo dos anos 1980, têm sido notoriamente frutíferas e às vezes igualmente voláteis. "Bom, sim. Ela é uma musa para mim no sentido de que uma musa faz de você alguém melhor. Acho que sou um diretor melhor com ela, porque ela acredita que eu sou melhor do que de fato sou, e essa fé cega me dá muita força." "Não, não", respondeu Cruz, balançando a cabeça e sorrindo calmamente. "Eu sei exatamente o quanto você é bom."

A química entre Almodóvar, 60, e Cruz, 35, pareceria quase romântica se ele não fosse um dos diretores assumidamente gays mais conhecidos do mundo e ela não estivesse ligada ao ator Javier Bardem nos tabloides. (Quando lhe perguntaram se um casamento estava a caminho, ela disse, com um sorriso agradável e olhos frios como aço: "Você é repórter do New York Times, né? Acho que talvez você não devesse perguntar esse tipo de coisa.") A relação fácil e afetuosa entre os dois se desenvolveu ao longo da metade da vida de Cruz - ela tinha 17 anos quando conheceu o diretor, que a rejeitou para o papel de uma mulher de 35 anos em sua comédia de 1993 Kika, mas lhe disse que a chamaria em alguns anos.

Ao longo de seus primeiros três filmes, ela conduziu as ondas emocionais de cada novo papel - "Nos filmes de Pedro sempre estou morrendo ou tendo bebês", ela disse - e a ligação entre os dois se desenvolveu. Quando ela ganhou o Oscar de melhor atriz coadjuvante no ano passado por Vicky Cristina Barcelona de Woody Allen, ela agradeceu Almodóvar efusivamente. E embora ela deseje tentar dirigir no futuro - "Talvez daqui a 10 anos", ela sugeriu; "Antes, eu acho", ele respondeu -, ela disse que faria isso apenas com a benção dele. "Você já tem!" ele exclamou para ela.

Abraços Partidos pode não ter comprometido sua relação, mas foi exaustivo. "Esse foi o filme em que mais chorei entre as tomadas", Cruz disse. "A energia e a maneira de se expressar dessa personagem são tão diferentes das minhas. Sou muito mais parecida com a personagem que interpretei em Volver. Ela era sólida, forte, como as mulheres com as quais eu cresci. Mas para essa personagem, Pedro sempre queria o que eu estava sentindo um pouco antes ou depois das lágrimas caírem - esses são os momentos nos quais eu a encontrei."
 

The New York Times
 
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