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29ª Mostra Internacional de Cinema
Quinta, 3 de novembro de 2005, 09h44 
Filme capta diplomacia do futebol brasileiro no Haiti
 
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Não é sempre que um time de futebol chega a um jogo em carros blindados escoltados por soldados. Ou que os jogadores são cercados pelos torcedores da equipe adversária numa demonstração de alegria e carinho.

Especial sobre a Mostra Internacional de SP

Essas foram cenas ocorridas em Porto Príncipe, a decrépita capital do Haiti, em 18 de agosto do ano passado, quando a seleção brasileira, incluindo Ronaldo e Ronaldinho Gaúcho, apareceu para participar do chamado "jogo da paz" contra a seleção haitiana.

Esse dia extraordinário, quando por um breve período os haitianos permaneceram unidos, foi registrado no documentário O Dia em que o Brasil Esteve Aqui, dirigido por Caíto Ortiz e João Dornelas. O filme será exibido nesta quinta-feira na 29ª Mostra Internacional de Cinema de São Paulo, no Reserva Cultural, às 19h40.

A idéia do documentário aconteceu quando Dornelas leu no jornal que os campeões do mundo haviam concordado em ir ao Haiti, onde o Exército brasileiro liderava a missão de paz da Organização das Nações Unidas (ONU), após o violento período que se seguiu à deposição do presidente Jean-Bertrand Aristide, em fevereiro de 2004.

Dornelas e Caíto Ortiz seguiram para o país caribenho com o jornalista Fábio Altman, que assina o roteiro com os dois diretores.

"Passamos quinze dias lá e pudemos captar esse humor coletivo que havia lá. Também ficamos uma semana depois do jogo, o que deu uma boa sensação do vazio, do 'e agora?'", disse Ortiz, 34 anos, à Reuters.

A participação do Brasil na missão de paz integrou o plano do presidente Luiz Inácio Lula da Silva de projetar o Brasil no exterior como uma potência regional.

Como Bolívar, líder comunitário numa favela de Porto Príncipe, afirma no filme: "O Brasil veio para o Haiti com a sua arma mais poderosa: o futebol".

De carros blindados
Os três filmaram com câmeras digitais portáteis, permitindo proximidade com a ação. Muitas cenas parecem imagens de noticiário, mas não há comentários de um narrador, apenas uma trilha sonora caprichada. De qualquer modo, as cenas mal precisam de explicação.

Os times de futebol do Brasil - cujos jogadores são, como muitos haitianos, descendentes de africanos - ocupam há muito tempo um lugar especial nos corações do país empobrecido.

"As pessoas são muito pobres em todos os sentidos", disse Dornelas, de 30 anos. "Não têm comida, não têm educação. Não têm um serviço de saúde pública. Não têm ídolos. Não têm nada para torcer, então quando vêem um cara negro como eles saído de uma favela capaz de ganhar dinheiro e ser famoso, eles olham para isso como um espelho."

Uma das cenas mostra soldados brasileiros da missão de paz entregando cartões postais de Ronaldo, todos recebidos como se fossem ícones religiosos. Uma distribuição das camisas amarelas quase provocou um tumulto. Quando os ingressos para a partida foram colocados à venda, houve um pandemônio.

As câmeras acompanham os jogadores brasileiros do avião que transportou o time da República Dominicana para um dia no Haiti. As cenas mais impressionantes acontecem quando os atletas são levados para o estádio nos carros blindados brancos. Milhares de haitianos fervilhando de animação enchem as ruas, correm ao lado do comboio e gritam sua adoração aos jogadores.

Ronaldo, do Real Madrid, parece um pouco nervoso. Ronaldinho, do Barcelona, parece estar se divertindo.

Há também cenas comoventes. Os jogadores haitianos enfrentando o dilema entre a honra de jogar contra os seus ídolos e, ao mesmo tempo, sentindo-se orgulhosos de representar o país.

E o técnico brasileiro, Carlos Alberto Parreira, dizendo aos seus jogadores no vestiário que aquele era o maior jogo da vida dele e seria aquele que eles se lembrariam pelo resto de suas vidas.

Politicagens
O contexto político, como a saída de Aristide do país, a violência miliciana e a difícil história de desgoverno do Haiti, é amplamente ignorado pelos diretores.

"Foi totalmente de propósito. Começamos a tentar delinear o como e o quando e logo ficou óbvio para nós que isso não importava. Podia ser Aristide, podia ser Baby Doc ou Papa Doc. E é mais ou menos assim que a política é feita no Haiti...então mantivemos o foco mais na partida mesmo."

O Brasil fez 6 a 0 no Haiti e deixou o país na mesma noite. A euforia do evento não durou muito.

"A população parecia acreditar que o jogo resolveria a maioria dos problemas. De alguma forma eles escolheram acreditar que tudo ficaria bem a partir dali", disse Ortiz.

"E, ao final do dia, quando o jogo havia acabado e eles voltaram, as pessoas não estavam felizes."

Com efeito, as coisas foram de mau a pior no Haiti. A missão de paz promoveu ofensivas contra gangues em favelas, matando haitianos e registrando baixas entre seus próprios soldados. Tudo indica que as eleições serão um evento difícil e sangrento.

Mas, apenas por um dia, quando o Brasil esteve lá, o futebol correspondeu à expectativa de um bom jogo.

Ortiz, cujo filme Motoboys - Vida Loca venceu na categoria de melhor documentário na mostra de São Paulo de 2003, e Dornelas estão negociando a distribuição do longa nos cinemas brasileiros.

Eles também estão em negociações com a TV France, a NHK do Japão e a HBO dos Estados Unidos para a exibição na televisão antes do início da Copa do Mundo em junho do ano que vem.
 

Reuters

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