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Cinema e DVD
Segunda, 19 de maio de 2003, 10h37 
Diretor e elenco falam sobre Carandiru em Cannes
 
Reuters
Elenco de Carandiru posa para as fotos
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"A prisão tem para mim um significado muito mais metafórico do que realista; é uma espécie de 'huis clos', o qual me impus para poder interpretar o drama dos personagens", declarou o diretor Hector Babenco, cujo filme Carandiru foi apresentado nesta segunda no Festival de Cannes.

Carandiru é a terceira obra de Babenco ambientada em um presídio, depois de Pixote e O Beijo da Mulher Aranha, uma constante que o diretor explica através desse significado metafórico, embora considere seu último filme "tão realista que parece hiper-realista".

"A prisão para mim tem o significado do limite. Uma sociedade que aprende a se virar socialmente dentro de uma área fechada e enclausurada me pareceu um desafio fascinante para contar uma história e desenvolver outras dentro dela", afirmou.

"Pesquisas feitas com ratos na década de 50 determinaram o estudo do comportamento humano durante quase 50 anos. Quando eram colocados mais ratos em um espaço reduzido, a violência crescia e assim se passou a acreditar que, com os homens, acontece a mesma coisa. Só que até os anos 90, estudos similares feitos com gorilas e chimpanzés mostraram o contrário: quando se aumenta a população em uma área circunscrita, a violência cai".

"Essa idéia, por mais simples que pareça, foi a que me levou a querer fazer um filme em um lugar confinando, onde há espaço para 3 mil pessoas e onde vivem 7,5 mil a 8 mil, e a violência não existe na proporção que deveria", explicou.

"Hoje em dia, no Brasil, há muito mais violência nas ruas, fora das prisões, do que dentro delas", enfatizou. É possível conhecer uma sociedade através de suas prisões? "Eu acredito que sim. Pode-se pelo menos conhecer a idiossincrasia dos que foram julgados e condenados, e a quem tanto tememos, e que são pessoas como as outras, têm família, pai, mãe e irmãos, só que vivem numa carência absoluta e numa orfandade por parte do Estado, que não lhes deu desde o início de sua vida absolutamente qualquer infra-estrutura para que pudessem crescer conhecendo pelo menos os códigos essenciais de ética e moral, a idéia da tolerância e do respeito pelo outro".

"A mensagem que Carandiru nos passa é que uma sociedade que não se organiza de maneira mais compreensiva em relação às pessoas carentes terá cada vez mais 'carandirus', cada vez mais violência".

Babenco volta com este filme a fazer cinema depois de vários anos afastado por causa de uma doença. "Este filme é para mim uma coincidência muito feliz, porque o homem que escreveu o livro em que foi baseadou é o médico que me curou de um câncer e nós temos uma relação há 14 anos, durante os quais acompanhei o processo de redação do livro. Quando me curei, o livro já estava nas livrarias", contou.

"Eu estava muito mal, muito carente de uma fantasia própria depois de sair de um trasplante de medula óssea e de um tratamento muito difícil, e ler o livro me reacendeu a vontade de trabalhar". Nascido na Argentina e naturalizado brasileiro, Babenco explica que se sente fruto dos dois países. "Sou uma mistura. Vivi na Argentina até o final da adolescência e devo à Argentina uma formação intelectual séria, uma curiosidade e um respeito pelo mundo, um amor pela literatura, um amor pelo cinema, um respeito pela arte e uma melancolia e uma tristeza que são muito argentinas e que me dão medo. O Brasil me deu a alegria de viver, a confirmação de que a vida pode ser algo mais relaxado e mais tranqüilo."

O cineasta concluiu a entrevista dizendo não ter ainda novos projetos. "Acho que tenho que desfrutar um pouco do sucesso desse filme. Vou levá-lo aos Estados Unidos, acompanhá-lo um pouco, e aproveitar este momento que estou vivendo".
 

AFP

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