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| Clara Choveaux e Thiago Telles |
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Mesmo depois de se tornar estrela no Festival de Cinema de Cannes e conceder cerca de 20 entrevistas na terça-feira passada, a brasileira Clara Choveaux fez questão de manter sua simplicidade intacta.Naquele mesmo dia, exausta com o assédio da mídia, a atriz resolveu trocar o salto alto por confortáveis sandálias havaianas para encarar a grande festa do filme Tirésia, em competição na mostra francesa e no qual se destaca no papel de um transexual. "Levei minha coleção inteira de havaianas para lá (Cannes) e quis colocar uma coisa mais à vontade e mais brasileira para poder dar umas sambadas", disse a atriz à Reuters por telefone de Paris, onde mora desde 2000. O longa-metragem do diretor francês Bertrand Bonello causou furor no festival depois de mostrar a bela e desconhecida Clara de barba, manipulando um pênis postiço e sendo duramente espancada. Graças a sua atuação, ela se tornou forte candidata ao prêmio de melhor atriz que será entregue no domingo, quando termina o festival. Filha de um francês e uma curitibana, a estrela de 28 anos largou em 2000 a faculdade de teatro que fazia em São Paulo para tentar uma nova vida em Paris. Há dois anos ela trabalha no clube Favela Chic como garçonete e hostess, mas agora não vê a hora de voltar para o Brasil. "Estou morrendo de vontade de trabalhar aí, ainda mais com esse monte de diretores novos e excelentes. Queria unir o útil ao agradável", contou ela. PANCADARIA REAL Tirésia, inspirado num conto da mitologia grega, é o segundo filme de Clara. Sua estréia nas telas foi uma ponta em O Pornógrafo, em 2001, também de Bonello. Atualizado para os dias de hoje, Tirésia conta a vida de um transexual brasileiro que mora em Paris e acaba raptado por um homem, Terranova, que vê nela os ideais da beleza humana. Privado dos hormônios, Tirésia começa a ter de volta as características masculinas, acabando com o encanto de seu raptor, que o joga num terreno baldio. Daqui para frente Tirésia passa a ter poderes de adivinho, como no mito, e é representado por outro ator, o também brasileiro Thiago Teles. "O pessoal saiu meio atordoado do filme, é verdade. Notei que umas 20 pessoas saíram no meio (da exibição), mas, para um teatro de 2.500 lugares lotado, isso não é nada", contou ela, completando que no final o público se levantou para aplaudir avidamente o longa-metragem por cinco minutos. A parte mais chocante, segundo a atriz, é quando ela é cegada por Terranova. "Essa hora eu solto um grito tão forte que é quase insuportável de se ouvir. Também me espancam, me jogam dentro de um porta-malas. Se funciona mesmo é porque foi tudo muito real", disse. PRIMEIRA PRÓTESE A pergunta que não queria calar na coletiva que ela concedeu à imprensa em Cannes, no entanto, era sobre os detalhes da sua transformação. Segundo Clara, a prótese peniana foi a primeira a ser feita pelo principal estúdio de efeitos especiais da França. "Quando cheguei lá para tirar o 'molde pélvico', como eles dizem, senti a angústia dos caras. Estavam todos envergonhados e eu também. Ia lá duas vezes por semana acertar tonalidade de cor, tamanho, essas coisas", contou ela, entre risadas. No total, foram feitas duas próteses, uma "de descanso" e outra "superpoderosa", como ela mesmo definiu. Uma foi usada numa cena de banho e a outra, em uma "espécie de suruba" com uma menina e um rapaz. "Olha, vou te contar. A prótese vinha quase no meu umbigo. Tentei descobrir com os caras do estúdio quem eles usaram para moldar o pênis, mas não quiserem me contar", comentou a atriz, brincalhona. "Mas, no final, sai do filme muito mais feminina do que era", ressaltou Clara, que já prepara sua próxima investida no cinema, um média-metragem francês.
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