Paranoias urbanas conquistam a crítica com 'O Som ao Redor'

Longa-metragem do diretor Kleber Mendonça retrata o medo da classe média urbana recifense Foto: Site oficial / Divulgação
Longa-metragem do diretor Kleber Mendonça retrata o medo da classe média urbana recifense
Foto: Site oficial / Divulgação
 
Beatriz Carrasco
Direto de Gramado

A falha no áudio que interrompeu a exibição de O Som ao Redor, na noite da última quinta-feira (16), não comprometeu o sucesso do filme entre críticos e público. A produção de Kleber Mendonça Filho, que concorre ao Kikito de longa nacional, mostrou como o cinema autoral também é capaz de conquistar o espectador, tendo como orçamento R$ 1,8 milhão. A estética bem trabalhada, pincelada por lacunas e ápices de horror que remetem à cinematografia de John Carpenter são completadas por uma crônica brasileira e uma trilha sonora trabalhada com maestria.

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Premiado no Festival de Roterdã e itinerante em mais 12 festivais no exterior, o filme retrata o medo da classe média urbana, sem usar recursos de violência, além da especulação imobiliária e o coronelismo moderno. Na zona sul do Recife, Seu Francisco (WJ Solha) vem de uma família proprietária de engenho que possui quase todos os imóveis de uma rua, onde histórias e personagens se revelam. Sob um medo permeado mais pela neurose moderna do que pela realidade, os moradores contratam o serviço de segurança para a rua pela mensalidade no valor de R$ 20.

Morador da rua em que foi gravado o longa, Kleber considera o bairro "absolutamente desinteressante" em comparação a outros locais do Recife. Tomado por imobiliárias, o local não possui personalidade, "é um não-lugar", segundo ele. "Esses não-lugares me interessam porque são fotogênicos e ficam muito claros na ideia de espaço. Hoje, o Recife inteiro é um canteiro de obras. Você destrói para construir, mas constrói sem nenhuma ordem estética. O cinema pernambucano está reagindo muito contra isso", pontuou o cineasta.

Enquanto escrevia o roteiro, o diretor imaginou que o filme seria de realismo social, mas a incorporação de recursos artísticos concedeu uma estética diferente à produção. As lacunas que surgem durante a trama, com cenas a la thriller que permanecem em aberto, "fotografa muito bem o medo e o terror" que assola a classe média moderna não só do Brasil, mas do mundo. A brasilidade da crônica, porém, aparece em pontos como o tratamento entre patrões e empregadas domésticas. "É uma relação interessante e complexa", segundo Kleber.

Os ápices de horror surgem de cenas lacunares, que ajudam a afastar o espectador do realismo seco ao qual o diretor não queria restringir o filme. Sonhos de personagens são completados pela figura de um menino que ronda o bairro, escalando árvores e invadindo casas. Essa figura emblemática, de acordo com Kleber, é a representação de uma lenda urbana recifense, o "menino-aranha", que ficou conhecido na região por explorar limites verticais que deveriam dar segurança aos moradores. "O pesadelo da classe média no Brasil é o arrastão, a invasão. No filme isso está presente através da criança", explicou.

Cenas delicadas e de beleza estética são vividas por destaques como Maeve Jinkings, que vive Bia, uma dona de casa desamparada pelo marido. A trilha sonora, que aparece como um personagem à parte, envolve ruídos da cidade e músicas incorporadas à trama de modo milimétrico. "É um lado nerd que eu tenho", brincou Kleber, que reproduziu a sonoridade do Recife a partir de sua própria vivência.

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