
Atualizada às 15h29 Orlando Margarido
Direto de Veneza
A brasileira Andréa Santana e o francês Jean-Pierre Duret se conheceram há 16 anos por causa do cinema e desde então seguem fazendo cinema. O encontro aconteceu durante as filmagens no Ceará do documentário It´s All True, sobre o mítico filme de Orson Welles nunca realizado a partir da viagem real pelo mar de três jangadeiros em direção ao Rio de Janeiro.
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Duret trabalhou no documentário como engenheiro de som, seu ofício até hoje. Já integrou a equipe de Louis Malle, Claude Chabrol e mais recentemente dos irmãos belgas Jean Pierre e Luc Dardenne. Andréa formou-se em Arquitetura e chegou a exercer a profissão. Nascida em Salvador, mudou-se com a família para a região cearense do Cariri e passou a se interessar pelo cinema ao conhecer o futuro marido. Casaram-se em 1998 e moram na França. Agora estão em Veneza para exibir na seleção Horizonte o terceiro documentário que realizaram juntos, Puisque Nous Somme Nés, algo como Já que nascemos.
Assim como os anteriores, foi realizado no Brasil e conta o drama de dois meninos que sobrevivem num posto de gasolina de estrada no interior do Ceará. As exibições acontecem no próximo sábado e domingo. "O nosso primeiro filme nasceu do nosso encontro, para compreender melhor a origem e a cultura um do outro", explica Andréa, em entrevista para o Terra, referindo-se a Romances de Terra e Água, de 2002.
Em seguida, veio O Sonho de São Paulo, realizado três anos depois. "O novo filme fecha de uma certa forma um ciclo, pois os meninos que filmamos poderiam ser os netos dos agricultores do primeiro trabalho", diz.
Confira trechos da entrevista concedida por Andréa Santana por e-mail!
Terra - Como surgiu o interesse por um cinema documental voltado ao Nordeste, seus personagens e imigrantes, tema dos três filmes?
Andréa Santana - Nasci em Salvador, mas meus pais tiveram que deixar a Bahia quando eu tinha seis meses e voltar para o Ceará por causa do golpe militar. Me considero mais cearense do que baiana e vivi parte da minha vida na Região do Cariri, interior do Ceará, onde eu e Jean-Pierre filmamos nosso primeiro documentário sobre os pequenos agricultores parceiros da terra daquela região. Romances de Terra e Água, filmado em 2000 e finalizado em 2002, nasceu do nosso encontro, como um sinal de amor para compreender melhor a origem e a cultura um do outro. Jean-Pierre é filho de pequenos agricultores da região de Savoie, na França, e eu sou nordestina. E ainda numa idéia de mostrar que os pequenos agricultores pobres do mundo se parecem. A cultura, a religião, as estruturas políticas e familiares mudam, mas a relação com a terra e com a vida é a mesma, feita de pragmatismo e de obstinação. Também venho de uma família de militantes políticos de esquerda onde a luta pela reforma agrária sempre foi uma bandeira. Acompanhando de perto a luta de nossos pais, fomos percebendo a grande experiência de vida que os pequenos agricultores têm e que vem do amor à terra que os alimenta. No nosso segundo documentário, fomos mais profundamente no tema e filmamos os filhos destes agricultores que vão a São Paulo para tentar uma vida melhor do que esta que a terra pode oferecer. Percorremos 25 mil quilômetros entre o Ceará e São Paulo, durante seis meses, encontrando pessoas que tinham partido ou voltado de São Paulo ou que têm vontade de ainda ir pra lá, assim como os nordestinos que moram em São Paulo até hoje. A migração foi apenas o fio condutor para falar do sonho de uma vida melhor. E Puisque Nous Sommes Nés fecha de uma certa forma um ciclo. Os meninos que filmamos poderiam ser os netos dos agricultores filmados em Romances de Terra e Água. Eles estão ligados à terra por seus avós e pais, vivem próximos do campo mas dentro da cidade, na periferia da cidade e são atraídos por todo o movimento, toda a circulação de gente e de coisas na área de um grande posto de gasolina a beira de uma BR, que é um lugar de passagem e que pode ser um ponto de partida para ir a outros lugares.
Terra - Como encontraram os dois meninos do filme?
Andréa Santana - Quando voltamos ao Brasil para mostrar O Sonho de São Paulo, fomos da cidade de Russas, no Ceará, até São Paulo projetando o filme de forma precária. Em São Caetano, perto de Caruaru, em Pernambuco, paramos num posto de gasolina antes de chegarmos ao acampamento dos sem-terra, palco de parte de nossas filmagens, e encontramos um dos meninos que havíamos filmado pedindo esmolas na porta do restaurante do posto. Foi um choque para nós, porque, mesmo se as condições de vida eram muito difíceis no acampamento, existia uma esperança, as crianças viviam experiências de atuação e discussão política. Ele nos contou que não estavam mais no acampamento e que moravam numa favela perto do posto. Fomos visitar a família. A situação era terrível, os meninos pareciam abandonados, famintos, doentes. Mostramos o filme, ajudamos como foi possível e numa conversa perguntamos se ele tinha uma certidão de nascimento ou uma carteira de identidade, e ele nos respondeu "não tenho nada, só tenho minha vida". Esta frase ficou martelando nas nossas cabeças, conversamos muito sobre a situação daqueles meninos, sobre a forma como eles questionam e analisam a vida deles, a situação do lugar e do momento onde eles vivem. Falas tão espontâneas quanto emocionalmente maduras. Então decidimos que este seria o tema de nosso próximo filme. Um filme onde temos Nego, que já conhecíamos do acampamento dos sem-terra, a família dele, além de Cocada, um garoto que conhecemos no posto, cujo pai foi assassinado e a mãe não liga muito para ele. Há ainda personagens paralelos como Zé Cocada, um agricultor sem-terra que filmamos no nosso segundo filme e que vive até hoje no acampamento, Mineiro, um caminhoneiro, e Denda, um vendedor de artesanatos que tem uma banca no posto. Passamos cinco meses com eles, porque achamos que o tempo é fundamental para a construção de uma relação mais profunda.
Terra - Jean-Pierre Duret tem uma lista respeitável como engenheiro de som de grandes cineastas europeus. Mais recentemente chama a atenção o trabalho com os irmãos belgas Jean-Pierre e Luc Dardenne e o casal francês Danièle Huillet (1936-1996) e Jean-Marie Straub, realizadores engajados no sentido de um cinema de preocupação social e político, voltado às classes sociais marginalizadas. São nomes referentes para vocês, de influência?
Andréa Santana - É claro que esses nomes são uma referência para nós, pela forma como eles fazem cinema, sua postura política, a forma de ver e de pensar os problemas sociais do nosso tempo. Sobretudo Jean-Pierre, que fez o som de todos os filmes dos Dardenne, mesmo os documentários que eles fizeram no início de carreira, e com quem temos uma boa relação de amizade. Straub et Huillet também, mesmo se ele fez apenas os cinco últimos filmes deles, a partir de Sicilia. Com Daniele aprendi muito, sobretudo o difícil e fascinante trabalho de legendar, porque é muito difícil conseguir guardar o que é dito, sem perder a beleza da musicalidade e fineza da língua. Uma linguagem poética de tradição oral, como é a do nordestino. Para mim, o encontro determinante para a minha história com o cinema é mesmo com Jean-Pierre, ele é meu grande professor. Não tenho nenhuma formação em cinema que não venha da prática e da convivência com pessoas que fazem cinema. Tudo que sei aprendi vendo e fazendo, cuidando atentamente de cada etapa de construção de nossos filmes. A cada filme trabalhamos pelo menos três anos entre a elaboração do projeto e a sua finalização. Além de filmarmos nós dois sozinhos, preparamos a montagem do som para o editor de som, preparamos a montagem da imagem para a editor da imagem, fazemos as legendas, e também toda a parte visual para a divulgação.
Terra - Qual a expectativa quanto à participação em Veneza?
Andréa Santana - É a primeira vez que vamos a Veneza. Nossa experiência em grandes festivais é pequena, porque o espaço para documentários, sobretudo sobre este tema, é muito restrito. É sempre uma grande luta para conseguir que o filme exista, seja visto, encontre seu lugar neste meio. Nosso desejo é que o filme seja visto pelo maior número possível de pessoas e que ele possa tocá-las profundamente, no sentido de provocar uma reflexão, uma mudança interior. É este diálogo de fundo, fundamental, que nos interessa. E se o fato de ter sido selecionado no Festival de Veneza pode ajudar a que o filme seja visto por mais e mais pessoas, já é uma grande coisa para nós.
Especial para Terra
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Tiago Santana/Divulgação
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