
Atualizada às 11h18 O cineasta Júlio Bressane, símbolo do cinema independente brasileiro, volta ao universo literário de Machado de Assis para reavivar a repulsa das pessoas a ratos e esqueletos no filme A Erva do Rato, apresentado no Festival Internacional de Cinema de Veneza.
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Apresentado na seção Orizzonti, A Erva do Rato é um filme exigente, apreciado após ser visto e que faz o público sofrer durante a exibição.
Em entrevista, Bressane explicou que "não é uma adaptação de Machado de Assis, mas é uma tradução em imagens de seu espírito".
A base literária são dois contos do escritor: Um esqueleto e A Causa Secreta, mas "deles há poucas linhas no filme", embora tenham sido feitas várias referências em torno de dois elementos: os ratos e os esqueletos, "as duas coisas que, em toda a história da arte e do homem, sempre provocaram repulsa".
Este "jogo semiótico", segundo o diretor, é protagonizado por Alessandra Negrini - que já trabalhou com Bressane em Cleópatra (2007) -, e Selton Mello.
A Erva do Rato tem uma primeira máscara, nas palavras de Bressane: a literária. Com ela é possível recuperar a qualidade de Machado de Assis (1839-1908) para "reinventar a língua portuguesa, com novas linhas formais e estruturas" que resultam em uma narrativa cinematográfica insólita.
A Erva do Rato - o único veneno que não tem antídoto, segundo o filme -, começa em um cemitério no qual duas pessoas, cujos nomes são apenas Ele e Ela, se conhecem e são condenadas a ficarem juntas para sempre.
Ela se submeterá a partir de então a Ele na dura tarefa de transcrever as histórias que lhe conta e que encherão centenas de cadernos que consumirão sua energia.
A palavra protagoniza "A Erva do Rato" à primeira vista, mas "após esta primeira máscara há outra: a luz", diz o diretor.
Desta forma, as referências pictóricas aparecem ao redor da pintura de Edouard Manet (1832-1883) e, especialmente, do quadro O almoço sobre a erva (Le déjeuner sur l''herbe), que impulsionou o Impressionismo, apesar de seu autor renegar o termo.
"Fala da percepção e do desenvolvimento da luz. A luz é um processo químico e está antes dos atores e das cenas", disse.
Julio Bressane, que é co-editor do filme junto com Rosa Dias, começou sua carreira em 1966 com o curta Lima Barreto - Trajetória e logo surgiu como um dos protagonistas do Cinema Novo brasileiro, onde desenvolveu uma carreira marcada por uma linguagem experimental, ritmo pausado e clara tendência estética.
Em 1985 já havia feito uma adaptação de Machado de Assis em Brás Cubas e entre seus últimos títulos se destacam Miramar (1997) e Dias de Nietzsche em Turim (2001).
EFE
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