
Atualizada às 13h02 Orlando Margarido
Direto de Veneza
Importante em toda a cinematografia de Julio Bressane, a referência da pintura clássica e seu jogo de luz e sombra é mais uma vez elemento fundamental em A Erva do Rato, o novo filme do diretor, apresentado na segunda-feira fora de competição em Veneza. "Para mim, o princípio de um filme é a luz, mesmo antes de existir o roteiro, os atores, a direção", disse Bressane, numa entrevista marcada por citações intelectuais, como costuma fazer em seus debates.
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O cineasta explicou que neste caso há uma lembrança do pintor italiano barroco Caravaggio, habitual em seus filmes, mas principalmente do francês Édouard Manet, um pré-impressionista, e de forma específica, de seu famoso quadro Le Dejeuner sur l'Herbe.
Também comparecem como inspiração as representações da cena mitológica grega do julgamento de Paris. "Acredito que essas referências pictóricas são uma máscara de papelão, e meu interesse é o que surge atrás delas, que não deixa de ser outra máscara", complementou o cineasta, sob o olhar atento do diretor do festival, Marco Mülller, raramente presente nesses encontros com a imprensa.
A Erva do Rato nasceu, segundo Bressane, de engramas - traços e estímulos nos neurônios - de dois contos de Machado de Assis, A Causa Secreta e Um Esqueleto. Dessa junção, surge o personagem de um homem (Selton Mello) que acolhe uma jovem (Alessandra Negrini) desmaiada no cemitério e cultiva com ela a formação literária e depois passa a fotografá-la nua, obsessão dividida apenas com a perseguição a um rato.
Presente à entrevista, Alessandra Negrini comentou seu segundo trabalho com Bressane, depois de Cleópatra. "É muito prazeroso para um intérprete trabalhar com um autor como ele", comentou a atriz. "Meus ouvidos estão sempre atentos ao que ele tem a dizer, o que é sempre algo importante, uma viagem a um universo muito particular."
O título do filme refere-se a um veneno indígena. "O que me interessou nessas duas histórias é o horror que o homem tem do rato e do esqueleto, da simbologia que nasce dessas duas figuras."
Para Bressane, o rato na simbologia ocidental significa a morte, o tempo e o apetite sexual. Apesar de exibir com freqüência na fita o órgão sexual feminino, Bressane negou ao ser questionado se era um autor erótico. "O que você acha bonito é o que te dá prazer; todo mundo vai à procura da beleza e do gozo sexual."
A adaptação de Machado de Assis não é novidade na trajetória de Bressane, que assumiu no passado o risco de filmar Memórias Póstumas de Brás Cubas. Mas ele acredita que há Machado em muitos de seus filmes.
"Machado é um inventor da língua portuguesa, na verdade um re-inventor da prosa e da lírica, e seu estilo já sugeria nos anos de 1800 imagem, ou seja, cinema."
O diretor lembrou ainda que ao final da fita, já nos créditos, ele adicionou algumas cenas de making of como referência ao hábito de Machado de conversar com o leitor. "É uma espécie de posfácio."
Bressane negou ainda que seu cinema seja um teatro filmado, relação costumeira feita com seus filmes. "Não é porque tem um plano fixo e longo que é teatro filmado; teatro para mim é o que era feito antes da encenação de salão, aquela feita no espiritismo, por exemplo, na umbanda."
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