
Orlando Margarido
Direto de Veneza
É cada vez mais comum ouvir das pessoas envolvidas na cobertura do festival que bons filmes só são vistos fora da competição. Ontem havia mais uma prova dessa avaliação com a presença inteligente e simpática da belga Agnès Varda.
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Aos 80 anos, "en plein forme" como dizem os franceses, a veterana cineasta radicada na França voltou ao Lido para apresentar um documentário mais uma vez ligado a sua trajetória profissional e pessoal, o que obviamente inclui seu companheiro Jacques Demy, morto em 1990.
Les Plages d¿Agnès (As Praias d¿Agnès, na tradução literal) foi exibido ontem fora da seleção de concurso. Na sessão oficial, a diretora recebeu o prêmio Vive la Cinéaste ou Glory to the Filmmaker das mãos do presidente do júri, o cineasta alemão Wim Wenders, e da diretora também belga Chantal Akerman.
Sempre bem-humorada e inteligente, Varda lembrou aos presentes que não deveriam levar em conta aquele prêmio para julgar o filme. "Devem se ater só ao que vêem na tela, podem gostar ou não e se retirar se quiserem; mas quem ficar até o fim terá uma surpresa extra", aconselhou.
No documentário, a diretora retorna à vila litorânea de Sète, no sul da França, para lembrar dos lugares onde passou a infância e as pessoas com quem conviveu. O local é simbólico para a formação da cineasta, que ama as praias. "Se eu fosse cortada em dois, vocês veriam o mar no meio de mim; eu adoro a horizontalidade da praia, que é a horizontalidade que enxergo também no cinema", comenta no filme.
A partir dessa lembrança, Varda cobre toda sua formação, do contexto em família à produção mais recente, passando pela iniciação no cinema, a convivência com a Nouvelle Vague, os principais movimentos culturais e políticos em Paris e uma curiosa passagem por Hollywood. Nessa ocasião, levada por Jacque Demy quando convidado a filmar na América, Varda lembra de um teste com o jovem e desconhecido Harrison Ford, desprezado pelo estúdio com a desculpa de "não ter futuro no cinema".
O que faz a diferença do enfoque de Varda para o formato documental em geral é sua união do pessoal com o coletivo, os momentos íntimos da família, dos filhos e do marido que surgem em sintonia com situações universais.
"Sempre foi assim porque o cinema é a minha vida e a minha casa, nunca houve separação entre uma coisa e outra", disse em entrevista aos jornalistas. Questionada onde busca a energia demonstrada na tela para continuar a filmar, Varga disse que só pode viver fazendo cinema e que há exemplos no mundo a serem seguidos, como do português Manoel de Oliveira, que segue filmando aos 100 anos. "Ele é um monstro, e eu acho que já posso dizer que sou um meio-monstro".
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