
Atualizada às 10h17 O penúltimo título da competição exibido quinta-feira à noite foi, na opinião de muitos jornalistas estrangeiros, ofensivo e indigno de integrar uma seleção do porte de Veneza.
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A comédia italiana Il Seme della Discordia - um trocadilho entre a expressão "a semente da discórdia" e "sêmen da discórdia", que se explica pela trama - foi recebido quase em silêncio, algumas palmas e também vaias pela platéia que lotou a Sala Lido, uma das maiores do circuito do festival com 1300 lugares.
Era um público duplicado pelo fato de que a sessão anterior para a imprensa diária havia sido cancelada. A justificativa da organização era de que o filme não havia chegado, situação que levantou suspeita entre jornalistas, já que outra cópia estava disponível para a exibição seguinte a poucos metros, em outra sala. Cairia bem, afinal, público e imprensa assistirem juntos a fita, diversificando as reações, o que justamente aconteceu.
A comédia de Pappi Corsicato tem defeitos próprios suficientes para justificar seu resultado desastroso. Mas a escalação para um concurso internacional como Veneza torna os problemas mais agudos e a amplia a discussão da presença num festival que se manteve regular, quando não fraco, em toda a programação. Corsicato foi assistente de Pedro Almodóvar e tenta trilhar o caminho do talentoso cineasta espanhol com pretensa ambientação e humor cínico.
Apresenta, isso sim, uma produção cafona, leviana e com piadas no mínimo de mau gosto, na qual as primeiras vítimas são as mulheres, personagens em que o filme se centra.
Veronica (Caterina Murino) é a comerciante que engravida no momento em que o marido (Alessandro Gassman, filho de Vittorio Gassman) revela-se estéril. A trama envolve ainda a mãe e amigas da protagonista, além de um policial apaixonado que a ajuda após um assalto na rua.
Em uma das situações de humor grosseiro, a mãe da protagonista refere-se à filha grávida e abandonada como "uma daquelas mães da Bósnia, vítimas de estupro, que não sabem quem é o pai de seus filhos". E sobra para o Brasil também, numa referência aos travestis brasileiros, um grupo grande na Itália.
No texto que assina para apresentação do filme, o diretor diz ter se inspirado no romance A Marquesa d'O, de Heinrich Von Kleist, que Eric Rohmer adaptou maravilhosamente em 1976. Transformou, segundo declarou na entrevista, numa novela (entenda-se como teledramaturgia) ácida, surreal e nada naturalista, voltada a problemas contemporâneos como mães obsessivas, filhos ocupados, casais distantes pela dedicação à carreira.
O que se traduz no filme no uso abusivo das mulheres como potentes sedutoras e objetos de sexo e satisfação de maridos e amantes. Os homens, claro, levam vantagem numa descrição caricata. Num certo momento, Corsicato chegou a dizer que nem sempre entendia o que estava fazendo e seguia sua intuição.
Em entrevista, houve quem cobrasse das atrizes uma posição sobre essa representação de mulheres idiotas e objetos de prazer, ainda que a fita tente se inserir num universo dos anos 60 e venha a sugerir um momento de pré-revolução feminista.
As atrizes preferiram falar da maquiagem exagerada e as cores fortes das roupas do que a característica de seus personagens. Caterina Murino, única a responder vagamente a questão, sem entender ou fazendo de conta que não entendeu, disse que as mulheres do filme são vistas na superficialidade que cabe a uma comédia, sem procurar algo mais profundo, contexto que o filme não explora. Essa talvez seja o único conceito verdadeiro da fita.
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