
Orlando Margarido
Direto de Veneza
Il Seme della Discordia, afinal, não provocou tanta discórdia. Ao menos pelo que se lê neste sábado nos principais diários italianos, dia em que a fita estréia em toda a Itália, a opinião dos críticos e cronistas sobre um dos quatro títulos do país em concurso tende à superficialidade, o que aliás tem muito a ver com a proposta de Pappi Corsicato.
"O filme parece ter a leveza como fio condutor", diz o La Reppubica, que segue comentando a beleza das atrizes em cena, seu glamour e o colorido do filme.
O Corriere della Sera vai mais longe: "se o festival teve uma má abertura, termina decididamente bem com Corsicato e (Darren) Aronofsky (The Wrestler)". E prossegue: "Il Seme é uma releitura pós-moderna da Marquesa d'O, de Kleist (...); a Corsicato interessa o fascínio pop das cores e formas, incluso aquelas femininas."
A maior parte dos cronistas, alguns bem respeitados como Tullio Kezich, do Corriere, se manteve fora da discussão sobre o filme. Em sua coluna ele preferiu invocar a história da premiação do Leão de Ouro, lembrando quantos mestres do cinema já foram esnobados aqui. Termina dizendo que espera que a entrega dos troféus, na noite deste sábado, esteja entre os bons resultados históricos de Veneza.
A distância dos especialistas de uma discussão séria sobre a baixa qualidade dos concorrentes na mostrapode confirmar algumas opiniões da imprensa estrangeira presente no Lido de que há uma certa cumplicidade dos jornalistas italianos. Muitos estrangeiros apostam que Il Seme della Discordia está presente na mostra por pressão política, já que a fita tem produção da Medusa Films, pertencente ao conglomerado de Silvio Berlusconi.
Quem toca na ferida com um pouco mais de força, mas também com cuidado, é Paolo Mereghetti, também do Corriere. Ele lembra que o diretor da mostra, Marco Müller, havia lamentado as críticas preconceituosas dos jornalistas de casa e de fora contra a seleção deste ano.
"Ao final, porém, esse sentimento encontrou mais do que uma justificativa em um programa anunciado como o melhor, mas que resultou um dos mais contraditórios das últimas edições", comenta em sua coluna.
"O programa deste ano deu a impressão da falta de uma bússola certa, mas isso não quer dizer que não se viu belos filmes", relativiza o crítico, que escolhe o filme etíope Teza como seu preferido.
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